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segunda-feira, 5 de março de 2012

UM PRECIOSO TEXTO DE MÁRIO QUINTANA: O NARIZ COLETIVO

NEUZA MACHADO


UM PRECIOSO TEXTO DE MÁRIO QUINTANA: O NARIZ COLETIVO

NEUZA MACHADO


Os poetas e os pintores costumam enxergar além das formas convencionais dos retratos...

No post de hoje, peço aos meus leitores habituais, e aos que aportarem por aqui de passagem, que leiam este texto de Mário Quintana e que repensem a incomum sutileza crítico-literária do inesquecível poeta gaúcho.

(Aproveitem também para repensarem a pintura de Pablo Picasso e o título que procura traduzir a figura de seu belíssimo quadro: MULHER COM LEQUE).


O NARIZ COLETIVO

Mário Quintana

Nada mais deprimente do que esses retratos de família em que todos têm o mesmo nariz (será postiço?) e onde todas aquelas caras parece que estão pensando: “Mas como somos iguais, como somos animais!”

Não há de ser nada. Há um anonimato ainda mais sutil e mais grave. Quando folheamos revistas antigas, espanta-nos que todas aquelas pessoas que aparecem nas fotografias tivessem a mesma expressão. Vai ver que todos pensavam igual! Era a cara da época. Era a cara de fora. Ninguém tinha a cara de dentro. “Também seremos assim”? – indagas agora na maior frustração. Pergunta supérflua. Devias inquirir: “Serei assim”? E trata, antes, de substituir a tua cara coletiva por uma fisionomia própria. Depois, conversaremos.

Há outras conotações, como hoje se diz. Por exemplo: nos Estados totalitários todas as pessoas têm a mesma cara. A grande manada. O rebanho único. E se acaso aparece um bicho diferente, a solução é simples: caça-se.

quinta-feira, 1 de março de 2012

SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: O ELEVADOR PANORÂMICO E A CIDADE NO TOPO DA MONTANHA - 9

NEUZA MACHADO


SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: O ELEVADOR PANORÂMICO E A CIDADE NO TOPO DA MONTANHA - 9

NEUZA MACHADO


No auge de minha Segunda Idade (dos meus trinta anos em diante), eu costumava sonhar com estradas de montanhas (sempre, subindo-as), escadas problemáticas (sempre para o alto) e, por diversas vezes, com elevadores panorâmicos (sempre em ascensão). Nesses sonhos (todos com trajetórias difíceis), não me lembro das descidas. Acordava antes dos fatais desenlaces.

Minha filha Ana Lucia costumava a admoestar-me, dizendo-me que, durante os tais sonhos, inconscientemente, eu os manipulava, para não me ver caindo ou descendo (o que seria uma espécie de perda em relação ao meu desejo de vencer os obstáculos vivenciais). Ainda penso que minha filha tinha razão! No entanto, hoje, sei que os sonhos de quedas e descidas não são sinônimos de danos existenciais, ao contrário, poderão revelar mudanças saudáveis na vida do sonhador. Segundo Gaston Bachelard, algumas descidas em sonhos não são retrocesso (descer ladeira em sonhos é um sinal de que os terríveis problemas da subida foram vencidos), pois, apresentando-se tranquilas, poderão revelar o bem-estar existencial-monetário daquele que sonha.

E, por estas e outras, buscarei lembrar-me de um interessante sonho, cujo fantástico enredo foi sonambulado por mim lá por volta dos meus trinta e poucos anos.

Nesse sonho, como sempre disse em relação aos anteriores, não me recordo dos movimentos iniciais. Assim, começarei explicando que estava a andar pelas calçadas de uma grande cidade (uma Metrópole, talvez a cidade do Rio de Janeiro), quando me percebi a entrar na portaria de um alto edifício (coloque aí em sua mente, meu Leitor!, uns dez andares!). Aproximei-me do porteiro a pedir-lhe uma informação. Acredito que eu estava a procurar o apartamento de alguma pessoa conhecida, ou por um outro motivo qualquer que não me lembro. O saguão de entrada do edifício, onde se localizavam os elevadores (muitas portas), era amplo, revestido por um enorme tapete negro-brilhante onde se viam fantásticos arabescos de ramificações de flores douradas. As altas paredes eram lisas e claras, de uma certa parte para cima, pois na parte de baixo das mesmas (um metro e meio mais ou menos) apresentava uma barra chapiscada cuja cor se ia em gradações, de baixo para cima, do amarelo, passando pela cor de ouro velho, até a uma cor semelhante ao vermelho-grená (este foi um trecho muito nítido do sonho, visto que lembro-me dele com exatidão). O porteiro (de aparência européia), atencioso, posicionado do lado de fora de sua cabine de atendimento, de pé, uniformizado (uniforme e quepe de cor caqui, contrastando com a cor negra do tapete), deu-me a informação solicitada, apontando-me a porta de um dos elevadores.

Caminhei por aquele amplo recinto e, não sei explicar-lhe a mudança de ação do sonho, pois me vi perdida diante de tantas portas à minha disposição. Andava à direita e à esquerda do amplo corredor, circulando-o quase em desatino, olhando as ditas portas das cabinas móveis sem me atrever a entrar em uma delas. Não vi mais o porteiro, mas muitas pessoas entravam e saíam daqueles apertados e sobrecarregados quartinhos moventes.

Em um certo momento, pedi uma nova orientação a um determinado transeunte, entre os muitos (homens e mulheres em movimentos de ida e vinda) que saíam daquelas altíssimas e fantásticas portas (as paredes do saguão eram altas e as portas dos elevadores também, proporcionais à aparência interna do saguão). O homem (com uma vestimenta própria de funcionário público) mostrou-me uma porta diferente das outras, mais simples, sem nenhuma ostentação, e esta ficava próxima à entrada do saguão (ainda do lado de dentro), do lado esquerdo de quem entra. Olhei aquela porta de elevador, tão diferente das demais, tão sem glamour!, com pouco ânimo, com uma espécie de receio (o saguão era tão pomposo que, mesmo no sonho, eu não podia acreditar em minha visão: a aparência da dita porta, apresentada pelo passageiro segundo informante, contrastava com a opulência do hall do edifício). Calcei-me de coragem e entrei no dito elevador.

Passarei a relatar-lhe o interior do elevador. Quando entrei, deparei-me com um recinto sem paredes (uma espécie de estrado quadrado, largo, apresentando em cada canto uma baixa pilastra, onde se viam algumas camadas de grossas cordas de fios de metal retorcidos a unir as quatro pequenas pilastras). Vale lembrar que o tablado-cabina ainda estava dentro das paredes por onde passam os comuns cabos de elevadores. Ainda bastante desconfiada, percebi um rústico banco de madeira na parte frontal à entrada e sentei-me nele, esperando o iniciar da subida. Um homem entrou e ficou ali, de pé, de lado, sem sentar-se no dito único banco, olhando-me fixamente. Para desanuviar o ambiente, perguntei-lhe algo, talvez, qualquer informação sobre o que eu estava a procurar naquele edifício. Respondeu-me gentilmente, dizendo-me também que o elevador iria demorar um pouco a subir, pois ainda não estava devidamente lotado. Agradeci-lhe a informação e esperei pacientemente acuada dentro daquele recinto fechado (lembre-se que o tablado-elevador se encontrava estacionado dentro da guarita). Não sei como, o homem desapareceu de meu ângulo de visão, não o vi mais. Um certo tempo do sonho passou e as pessoas esperadas não entraram.

De repente, um movimento brusco! A parede da porta de entrada do elevador desapareceu e o tablado-elevador saiu velozmente contornando o edifício, pelo lado esquerdo do ponto de minha visão. O tablado-elevador se transformou em uma espécie de trem-elevador (desses de parques de diversão, mas ainda um tablado, com as mesmas formas iniciais). Fiquei abismada em meu próprio sonho! No decorrer daquela impetuosa subida, percebi que a construção do grandioso edifício citadino estava ligada a uma alta montanha. A nova paisagem só foi-me apresentada no sonho no suceder dos acontecimentos da elevação da cabina panorâmica. E em velocidade anormal, o tablado-elevador subia em ziguezague a o lado montanhoso do edifício, contornando-o. Por meio de minha renovada perspectiva, apreciei o espetáculo a mim oferecido nesse estranhíssimo sonho. O passeio de elevador panorâmico, morro acima, mesmo em movimento rápido, permitiu-me apreciar uma larga extensão de terra, onde matinhos rasteiros e florezinhas coloridas enfeitavam o ambiente.

Tenho plena consciência de haver regalado-me durante o sonho com aquela extraordinária paisagem. Entretanto, movimentos de olhos depois, o elevador parou, alguns andares acima, e eu saí por uma porta que dava para um largo corredor. Nas laterais desse largo corredor viam-se outras portas, enfileiradas, denunciando as entradas de inúmeros apartamentos residenciais, além de entradas para diversas lojas comerciais com suas vitrines iluminadas. Procurando explicar-lhe o sonho, o corredor, situado nos andares superiores do edifício, mais parecia um Shopping americano misturado a comuns apartamentos de moradia. Enquanto eu procurava o tal endereço do início do sonho, eu via algumas pessoas andando no largo corredor iluminado, outras a conversar, sentadas em bancos estrategicamente dispostos no recinto, crianças brincando sob os olhares vigilantes das mães, etc. Continuei a regalar-me com o aspecto interno do edifício e a procurar o tal endereço. Como não encontrei o que procurava, busquei a porta de um outro elevador.

De repente, uma nova surpresa. Entrei no mesmíssimo tablado-elevador (exatamente o mesmo) e continuei nele, a subir em ziguezague, contornando o edifício pelo lado esquerdo, subindo em elevador panorâmico a encosta da montanha, apreciando a anterior paisagem (terra, vegetação rasteira e flores coloridas revestindo o lado visível da montanha). Ainda tinha plena consciência (mesmo sonhando) do edifício ligado à montanha pela parte dos fundos (não logrei apreciar a paisagem do lado direito do sonho, pelo meu ponto de vista, pois o arcabouço do alto edifício não permitia o estender de minha visão).

Quase finalizando o sonho, saí do elevador em ascensão (já era um elevador normal) em uma simples portaria de uma edificação térrea (pelo lado do topo da montanha), em um local menos ostentoso. A entrada-saída da rudimentar construção localizava-se no topo do luxuoso edifício-montanha, entretanto o porteiro que me saudou já não se assemelhava ao mesmo de antes (usava um vestuário comum).

Saí do recinto (térreo, não se esqueça!) e deparei-me com a movimentação de uma cidadezinha normal (ou um bairro, não posso precisar) e esta se localizava no alto da dita montanha. Era um lugar simples e acolhedor. Carros circulavam pela rua e tranquilas pessoas andavam nas calçadas laterais (totalmente diferentes daquelas pessoas apressadas do início do sonho). Lembro-me de ter visto trilhos de bonde na rua (mas não nenhum bonde trafegando),

Já postada do lado de fora do alto edifício-montanha, avistei do outro lado da rua, bem em frente ao meu ponto de visão, uma padaria-confeitaria com suas amplas portas escancaradas. Mesmo do outro lado da rua, eu via as vitrines iluminadas (as montras) exibindo uma variedade incrível de pães e doces e bombons, todos estimulando o meu paladar. Atravessei a rua, entrei na padaria-confeitaria e comprei alguma iguaria deliciosa. Lembro-me perfeitamente da compra e do pagamento. O vendeiro envolveu os pães e os doces em um papel cinza e os entregou-me acomodados em um embrulho amarrado com barbante. Coloquei o embrulho daquelas finas iguarias em uma espaçosa bolsa (que já estava comigo desde o início do sonho) e saí da Confeitaria, repleta de contentamento e dinamismo, já esquecida de ter iniciado o sonho a procurar um determinado endereço, ou alguém, ou alguma coisa inexplicável.

Ao final do sonho, eu me vi caminhando na calçada da Padaria-Confeitaria (ainda no topo do edifício-montanha) a procurar um táxi (automóvel de aluguel), esforçando-me por retornar ao caminho de minha casa.

Não desci a rua (visualizada da parte mais elevada). Acordei antes de achar o táxi, desejosa de nele viajar ricamente e confortavelmente ladeira abaixo. Os muitos sonhos de elevação, no decorrer de minha vida, não me ofereceram riquezas monetárias. Continuo subindo arduamente as montanhas cotidianas, carregando pesadas pedras, enfrentando forças contrárias, recebendo salários ínfimos, equilibrando-me, para recompor-me dos violentos puxões em meu tapete voador. Entretanto, posso afirmar-lhe que esses estranhíssimos sonhos, quase todos recorrentes, ofereceram-me um outro tipo de riqueza, valiosíssima!, que, infelizmente!, neste mundo globalizado, poucos privilegiados alcançam. Mesmo com o bolso do jaleco de trabalho diário vazio, continuo uma pessoa de muita sorte benfazeja (desde aquele primeiro sonho dos sete anos de idade, da ponte de tronco de braúna sobre o largo rio, a ligar a minha casinha do interior de Minas Gerais à grande Cidade). Também, continuo a apreciar meus noturnos sonhos de grandeza (só sei sonhar em amplitude!, sim senhor!), sem medo de ser feliz, sem receio das críticas desabonadoras!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: A CAMINHAR POR UMA ROTA DESCONHECIDA - 8

NEUZA MACHADO


SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: A CAMINHAR POR UMA ROTA DESCONHECIDA - 8

NEUZA MACHADO


Lembro-me de um entre os meus muitos sonhos com estradas montanhosas:

No sonho, eu havia iniciado uma viagem de automóvel conversível com meu marido e minha filha Ana Lucia, à época, já adulta. Meu marido era o motorista. Havia muita alegria e vivacidade nesse início de sonho. O automóvel (com a capota descaída) se movimentava por uma larga auto-estrada, dessas maravilhosas de Primeiro Mundo. Meus cabelos e os de minha filha esvoaçavam, soltos, animados, ao vento. Grandes caminhões de carga e velozes automóveis de passeio nos ultrapassavam ruidosamente.

Depois de um grande trecho percorrido, com o automóvel ainda em movimento acelerado, o meu genro Leon (nome fictício), esposo de uma outra minha filha (que não se encontrava nesse sonho), apareceu, repentinamente, a pedalar vigorosamente uma bicicleta, e ultrapassou-nos, a olhar-nos com um largo sorriso de vitória.

Em seguida a um bom trecho percorrido, a bicicleta, com o Leon a pedalar-lhe, e o automóvel, que nos transportava (ainda com o meu marido ao volante), passaram a trafegar, lado a lado, ao longo da auto-estrada. Lembro-me que conversávamos, quatro viajantes, enquanto o sonho se ia a movimentar-se.

Em um dado momento, o automóvel conversível de capota arriada transformou-se em um automóvel antigo, aberto (daqueles exaustivamente vistos nas revistas de colecionadores), e a robusta bicicleta do Leon metamorfoseou-se em uma bicicletinha de brinquedo. Não sei como, o Leon, alto e corpulento, se ia a equilibrar-se, e se movimentava, incrivelmente muito bem arranjado, em cima da tal bicicletinha.

Lá pelas tantas, paramos em um encostamento da larga auto-estrada. Se a recordação do sonho for verdadeira, penso que houve um enguiço no automóvel. Assim, saímos do veículo e ficamos, eu e minha filha, a conversar, enquanto os dois homens procuravam consertar algo no automóvel.

Em uma breve reviravolta do sonho, já estávamos – os quatro – caminhando a pé na larga estrada deserta, a subir uma serra de tirar o fôlego de qualquer normal caminhante (e já não havia movimento de carros). Lembro-me de que olhávamos sempre para trás, na esperança de aparecer uma condução. E nada! A auto-estrada já se localizava nas alturas de uma serra, pois percebíamos suas voltas longínquas, na encosta, ao olharmos para trás. Por vezes, tínhamos a impressão de visualizar, lá embaixo, subindo a estrada de serra, o vulto de um ônibus. Entretanto, o ônibus não chegava perto, nunca!, para embarcarmos nele. De qualquer maneira, no sonho, continuava um lindo dia ensolarado. A paisagem, visualizada em ângulo descendente, abarcando uma ampla região montanhosa, era magnífica.

Nova reviravolta do sonho e já estávamos parados (quatro caminheiros), a descansar à margem direita da auto-estrada. Enquanto conversávamos, o meu olhar detectou um outro caminho de terra, do outro lado da Auto-Estrada de Primeiro Mundo (uma espécie de bifurcação em atalho, que possivelmente iria terminar na mesmíssima auto-estrada). Eu olhava para o estreito caminho de terra fascinada, enquanto os meus companheiros de viagem conversavam distraidamente.

Como sempre acontecera até então em meus sonhos, procurei mudar o rumo da ação sonambúlica. Penso hoje que a viagem do sonho já estava a se tornar monótona e eu, espertamente, providenciei para ela uma dinâmica reviravolta.

Mais do que de repente, eu já estava a caminhar sozinha por um rústico caminho de terra. No início, era um caminho estreito, mas, logo se tornou uma estrada mais larga, ainda de terra. Para não perder o costume de enfrentar diversos obstáculos, em meus sonhos dinâmicos, por um bom período das ações, fui a me safar heroicamente dos muitos que encontrei. De trecho a trecho, sempre aparecia uma demanda para que eu a vencesse: pedras impedindo a passagem, chuvas torrenciais, partes de caminhos alagados, pessoas estranhas e mal-encaradas se aproximando de mim, na retaguarda ou em sentido contrário, cachorros latindo à minha passagem, vultos misteriosos pairando por perto, e outros obstáculos próprios de sonhos de aventuras. Lembro-me que passei por pequenas Vilas, todas parecidas com os pequenos Arraiais que margeiam as estradas do interior do Brasil. As Vilas e suas pequenas e humildes casinhas, com seus moradores a olharem-me sorridentes. Recordo-me de ter visto brancas igrejinhas ao longo de minha caminhada. E lá ia eu, começando a ficar temerosa, porque o caminho e os obstáculos se desenvolviam, cada vez mais estranhos, e eu não chegava nunca à estrada principal (aquela do princípio do sonho).

Já me sentia cansada, de tanto andar e, principalmente, de me defrontar com impedimentos vários, quando, sem mais nem menos, apareceu-me uma acompanhante. Era uma senhora negra, gorda, simpática e sorridente (talvez, fosse a mesma daquele outro sonho, daquela viagem de trem, já relatada anteriormente). Por sorte (e eu sempre me considerei uma grande privilegiada da sorte, por formar interessantes enredos sonambúlicos no decorrer de minhas noites de sono calmas ou agitadas), não fiquei com medo da providencial acompanhante. A partir dali, os entraves do caminho se suavizaram, e eu continuei a caminhar, com mais tranquilidade, a conversar com a senhora (que, por sinal, aparecera em meu sonho inesperadamente, apenas para confortar-me nas últimas etapas daquele estranho caminho de terra).

Ao longo do sonho, a caminhar e a enfrentar os diversos obstáculos, posteriormente, acompanhada pela estranha Senhora, continuava o dia ensolarado. De repente, ainda acompanhada da Senhora desconhecida (com certeza, um Anjo de Guarda), eu me percebi sorridente e animada, pois já visualizava o trecho final do caminho de terra e, um pouco distante, a larga auto-estrada de montanha do início do sonho. Ainda um dia muito ensolarado! Talvez o sonho fosse um contínuo amanhecer ou entardecer, não sei!

O caminho de terra terminava exatamente (como de costume em meus sonhos da meia-idade) no alto da montanha. Do outro lado da auto-estrada, bem a direção do estreito caminho, localizava-se um ponto de ônibus e algumas pessoas estáticas e, por sinal, também extáticas, se encontravam ali à espera de uma hipotética condução que as levaria a alguma outra parte extra-sonho.

Paralelo a auto-estrada, existia um outro caminho de terra, que se iniciava a partir do anterior (talvez fosse o mesmo, com uma pequena bifurcação para uni-lo à rodovia principal). Ali, naquele rústico entroncamento do caminho, despedi-me de minha acompanhante casual (e que me entretivera nas últimas etapas do sonho, fazendo-me esquecer dos obstáculos que tive de enfrentar). Curiosamente, a Senhora seguiu pelo caminho de terra paralelo à margem esquerda da auto-estrada, em sentido Norte. Ainda fiquei a olhá-la, enquanto o seu vulto ia desaparecendo, na distância de meu ângulo de visão, a subir a estrada de terra, como se fosse uma névoa.

Antes de atravessar a larga rodovia, deslumbrei-me com o cenário que se projetava do outro lado. Como já foi relatado, ali se localizava um ponto de ônibus, entretanto, ao fundo do Ponto de ônibus, do lado da margem do despenhadeiro, existia uma ampla casa iluminada (e era ainda um dia ensolarado!), possivelmente uma hospedaria. As várias portas do pavimento térreo, com o interior iluminado, denunciavam que ali era uma espécie de Confeitaria ou Café ou Padaria. A edificação, em meu sonho, exibia faixas com dizeres luminosos encimando as muitas portas existentes. A casa parecia estar pendurada no despenhadeiro, insolitamente presa à encosta do lado direito da rodovia. De qualquer maneira, as luzes projetadas a partir dela eram excessivamente brilhantes. As pessoas que se encontravam no ponto de ônibus apareciam, ao meu ponto de vista, estranhamente iluminadas, graças àquela incrível luz que as rodeava.

Enfim, atravessei a rodovia que se encontrava, naquele momento do sonho, totalmente sem os rotineiros veículos barulhentos. O ambiente estava silencioso. Até mesmo as pessoas que estavam ali paradas, iluminadas, à espera de condução, não conversavam umas com as outras (pareciam seres estagnados).

Caminhei a direção do ponto de ônibus. Quando ali cheguei, encontrei a minha filha a esperar-me. Perguntei-lhe porque estava sem a companhia do pai e de seu cunhado Leon (de meu marido e de meu genro). Ela me respondeu que caminhara sozinha, e que os outros dois estavam vindo de ônibus. Olhei para baixo, obliquamente, e abarquei a extensão da auto-estrada, em subida, contornando em ziguezague a encosta da montanha. A muita distância percebia-se o vulto de um ônibus, subindo morosamente a serra.

Não entramos na brilhante confeitaria! O dia continuava ensolarado! Esperamos juntas o ônibus se aproximar. Finalmente, ele chegou. Só eu e minha filha entramos nele. Deixamos para trás a visão da desconhecida casa iluminada. As outras pessoas continuaram ali, na parada de ônibus, estáticas, alheadas.

Dentro do ônibus, reencontramos apenas meu marido. Perguntei-lhe porque o Leon não se encontrava no ônibus. Não sei como, mesmo no sonho, obtive resposta: o meu genro Leon havia recuperado a bicicleta e fora a uma outra direção.

Em meio à algazarra do reencontro, continuamos a viagem...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: SUBINDO A SERRA ENCANTADA - 7

NEUZA MACHADO


SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: SUBINDO A SERRA ENCANTADA - 7

NEUZA MACHADO


Durante os anos de casamento, graças ao marido irrequieto, morei em vários lugares do bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Para ir-me a caminho ao centro da cidade (por motivos vários), de ônibus, táxi ou automóvel de passeio, sempre procurava usufruir as benesses do atalho da Avenida Menezes Cortes (a popular estrada da Serra Grajaú-Jacarepaguá, uma das pequenas montanhas que circundam a Cidade Maravilhosa).

Por motivo dessas “curtas viagens”, a serra do Grajaú já estava nitidamente decalcada em meus pensamentos. E não sem razão, muitos mágicos sonhos, a partir dela, povoaram as minhas noites sobrenaturais.

Em um desses sonhos, logo no começo, o sopé da serra se sobressaiu, com as características já conhecidas. As tais características se evidenciavam sempre pelo lado do bairro da Freguesia de Jacarepaguá, pois ali se situava a minha residência daquele momento. E, para começar esta longa narrativa de um simples sonho com apoteose, o prédio em que eu morava, no dito sonho, estava fixado justamente no lugar onde se ergue a construção do Hospital Cardoso Fontes, na base da serra, pelo lado da Zona Oeste. Entretanto, não era propriamente o prédio do Hospital, mas o local de minha moradia sonambúlica (um pequeno edifício de três ou mais andares, nada parecido com a minha real residência daquele momento).

Para explicar o motivo da certeza dos andares, afirmo que, no início do sonho, eu estava atarefada na cozinha, preparando alimentos relacionados a uma atmosfera de festa, que eu e meu marido iríamos oferecer a algumas desconhecidas visitas. Da janela da sala (que se conjugava com a cozinha e a área de serviço, sem paredes intermediárias), eu os via a conversar no pátio em frente ao prédio.

Em um determinado momento do sonho, a cozinhar os deliciosos quitutes, precisei de temperos, mas não os tinha à mão. Imediatamente, aproximei-me do parapeito da janela da lavanderia caseira, contígua à cozinha (no segundo ou terceiro andar), e comprei os tais temperos.

Como comprei os tais temperos, se não saí da cozinha?

Explicação do insólito: A vizinha do andar de cima tinha uma mercearia em sua própria lavanderia-e-cozinha. Para solucionar o problema da imediata falta de temperos em meu espaço de sonho, criei uma solução engenhosa (uma pequena mercearia à minha disposição logo acima de minha cabeça), pois, bastou-me esticar um longo braço até à janela da vizinha (não me lembro se enviei o dinheiro da compra), para ela depositar em minha mão os necessários temperos.

Agora, a explicação da abertura-janela da improvisada mercearia: A janela-mercearia ficava (repetindo tautologicamente a informação) no andar de cima, à minha direita, em ângulo L ao contrário (ponto de vista oblíquo). Na verdade, não era uma janela, mas uma ampla abertura, sem esquadrias, sem batentes e folhas (um recorte quadrado na parede), semelhante às antigas aberturas de lavanderias de apartamentos, amplas e sem as folhas ou vidraças.

Depois da solução engenhosa, continuei a movimentar-me normalmente pelo interior da cozinha, mexendo nas panelas, etc. Lembro-me que, de vez em quando, procurava observar, pela janela da frente (possivelmente, uma sala de visitas), olhando para baixo, os meus convidados e meu marido, os quais estavam conversando no pátio do prédio.

Em um intervalo do sonho, olhei pela janela da sala (pelo o outro lado do largo cômodo, pois não havia paredes a separar os aposentos), observando a paisagem arborizada e o movimento dos carros de passeio e ônibus a subirem a sinuosa estrada.

(Somente para os leitores que não conhecem a dita Avenida Menezes Cortes, explico-lhes que esta é uma rodovia que vai a direção ao centro da cidade do Rio de Janeiro, cujo trajeto, íngreme e sinuoso, passa por uma minúscula Floresta, pelo lado de Jacarepaguá).

Entretanto, quero crer que o início do sonho não me satisfazia, porque o inicial ponto de vista do meu olhar esbarrava, à frente e pelo lado esquerdo, com a serra arborizada e, pelo lado direito de minha perspectiva, com a minúscula floresta, já em nível baixo, uma espécie de pequeno precipício.

Em um momento da sequência de imagens sem nexo, eu estava apreciando a paisagem, quase semelhante à da Serra do Grajaú, e, de repente, o sonho se transformou.

Olhando, ainda, pela janela da sala, os convivas e meu marido (que conversavam animadamente), retirei a minha perspectiva de cima para baixo e direcionei-a, em sentido horizontal, para o meu lado direito (o lado baixo da pequena floresta da dita serra). A mudança do panorama do sonho foi drástica. Ao invés do cenário já conhecido, visualizei, como se fosse ampla tela de cinema, uma espécie de outro lado, montanhoso (muito parecido aos altíssimos montes de Minas Gerais). O cenário, à moda mineira, do lado direito de minha perspectiva, unia-se insolitamente ao pátio do pequeno edifício, o palco telúrico de minha moradia de sonho (por meio do início de um estreito caminho campestre).

Da janela do segundo ou terceiro andar da residência do sonho, passei a apreciar o novo cenário. A partir de uma reorganização das imagens, a Serra do Grajaú com a sua movimentação citadina, já conhecida, desapareceu, para ceder o espaço a um ambiente campestre, montanhoso, próprio da região de Minas Gerais. Um caminho sinuoso e solitário se destacava e se afunilava, desde o pátio do prédio (onde ainda estavam os convidados e meu marido) até ao alto da montanha. A visão da encosta só apresentava uma vegetação rasteira, à semelhança de pastagens de animais. Não me lembro de ter visto árvores, por esta nova perspectiva. Na parte mais alta da montanha, pude perceber o contorno de uma distante casinha (à semelhança de representação de pequenina casa campestre em aquarela onírica).

Em um novo movimento do sonho (não me recordo dos detalhes), eu já estava iniciando a caminhada, morro acima. Ao virar-me rapidamente para trás, acenei um adeus para os convidados e o marido (que me olhavam espantados), e continuei a andar, subindo sempre a direção da distante casinha de pintura.

Ao longo do caminho tortuoso, fui enfrentando vários obstáculos (poças d’água, ribeirinhos sem pinguela, caminho obstruído por pedras caídas de um barranco, temporal, trechos inundados onde eu me debatia para sair, bifurcações e outros mais). Se me recordo bem, percebi um ou outro passante casual, em sentido contrário, mas, lembrando-me integralmente do sonho, o caminho estava praticamente deserto.

Depois de trancos e barrancos, cheguei ao topo do altíssimo morro, onde se encontrava a dita casinha. Pela verdade do sonho, já não era mais uma pequena casa, mas, sim, uma imensa residência campestre de um só pavimento, sobre uma pequena elevação de terra. Ao redor da casa, contornando-a, uma cerca baixa de tábuas lisas de madeira, em sentido horizontal, e em três camadas, presas em várias grossas estacas.

O novo cenário parecia-se com aqueles dos filmes de faroeste americano. Para completar a semelhança com a enxurrada de filmes de cowboys americanos, que dominavam os entretenimentos cinéfilos da juventude brasileira, da época, alguns rapazes estavam sentados a descansar em cima dos mourões da cerca (com roupas e chapéus de vaqueiro americano).

Procurando lembrar-me do sonho com exatidão, os vaqueiros não se surpreenderam com a minha presença. Todos me cumprimentaram ao modo da roça, com muito respeito. Eram jovens louros, tipicamente americanos. Um deles recebeu-me com gentileza, uma vez que’eu estava cansada da atribulada viagem, morro acima, e levou-me para o interior da moradia. Já no interior da casa, apresentou-me a uma senhora obesa, que parecia ser a dona do lugar, ou criada de confiança, para que me desse um temporário abrigo, e, a seguir, voltou para a companhia dos outros rapazes. A partir daí, não os vi mais. E o sonho se encaminhou para um outro rumo. Entretanto, as características da alta montanha continuaram as mesmas.

Continuando a falar dos acontecimentos que se sucederam no interior da casa, além da senhora obesa, duas adolescentes também apareceram na sala, onde inicialmente eu me encontrava a conversar com a anfitriã. Vale lembrar que as três mulheres estavam vestidas e penteadas à moda do Velho Oeste Americano, o que contrastava com a minha natural forma de vestir-me.

Da sala, eu observava o ambiente ao redor, e, dali, eu via a entrada principal, do lado de fora, uma espécie de passarela ladeada de pequenas árvores e flores e encimada por caramanchões em guirlandas floridas (os quais estavam ligados às árvores de lado a lado).

Em um movimentar de olhos, as jovenzinhas me levaram até a uma cozinha, de aparência antiquada, onde pude beber água e saborear algum quitute, pois ali se encontrava uma outra jovem a cozinhar. Não vi mais a senhora obesa, pois esta desapareceu misteriosamente para algum outro aposento da casa. A seguir, as duas jovens me levaram a um quarto, e me mostraram o quartinho-banheiro, para que eu pudesse tomar um banho e repor-me da caminhada.

Não me lembro dos detalhes da lavagem corporal. Entretanto, penso ter saído do local enrolada em uma toalha, pois não me recordo de ter-me visto nua nas sequências seguintes. As gentis mocinhas estavam me esperando no quarto com algumas roupas nas mãos, para eu as vestir. O vestido que me ofereceram assemelhava-se aos delas próprios: longo, rodado e cheio de enfeites. Presentearam-me com antiquadas sapatilhas, acompanhadas de longas meias de algodão, além de enfeites para os cabelos. Uma penteadeira estava ali, à minha disposição! E elas começaram a me pentear, executando um penteado também antiquado, com cachinhos e laços de fita colorida.

Já devidamente adaptada ao ambiente e já vestida à moda das mulheres cinematográficas do faroeste americano, as mesmas duas mocinhas me levaram de volta à sala e ficaram conversando comigo algum assunto de que não mais me lembro. Depois de algum tempo, elas me informaram que o meu marido estava a se aproximar, pois viera buscar-me para levar-me para a minha casa.

Olhei para fora, para o pequeno trajeto da entrada da casa, ladeado de flores e encimado por um caramanchão florido, e vi um homem muito branco e louro se aproximando. Era o tal marido anunciado pelas jovens! (E não era o meu verdadeiro marido, aquele do princípio do sonho).

O meu diferente marido se aproximou de mim, enlaçou-me, colocando o braço direito em meus ombros, e encaminhamo-nos para a saída da casa. Dirigimo-nos para a outra extremidade, por um grande corredor que atravessava toda a casa (de onde se divisava a porta de saída), um corredor que apareceu repentinamente, já no final do sonho.

Do dito corredor situado na parte interna da casa, não me lembro de tê-lo visto antes. E não me recordo se houve despedidas. Com a nova aparição, as anteriores personagens desapareceram. Saí abraçada ao meu marido muito louro e resplandecente, completamente feliz. O caminho em cima da montanha era reto e amplo, para frente!

Ao lado do meu marido misterioso, não desci a montanha pelo o outro lado! Não me lembro de caminho de descida! E não retornei ao início do sonho!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: A CASA ILUMINADA - 6

NEUZA MACHADO


SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: A CASA ILUMINADA - 6

NEUZA MACHADO


Em uma de minhas noites repletas de sonhos com circunstâncias diferenciadas, com muita dificuldade eu comecei a subir um caminho, estreito, ermo, a direção de uma altíssima serra, muito parecida com as inúmeras serras e montanhas que compõem a geografia do Estado de Minas Gerais, meu Estado natal (serras estas recortadas por uns poucos restritos caminhos, próprios para os trabalhadores do campo).

A direção do tal caminho, pela perspectiva de meu sonho, ao longo da subida, voltava-se para a minha direita. No entanto, apesar de ser ainda um dia claro, estava deserto. E, da mesma forma, nas encostas próprias para plantações diversificadas, não se percebia nenhuma movimentação laboriosa.

Já estava caminhando, serra acima, por um bom tempo, respirando com inquietação, quando ouvi estampidos de arma de fogo, e me vi obrigada a esconder-me atrás de uns arbustos (do lado direito da estrada, sempre pela minha perspectiva). Nesse ínterim, descendo a ladeira, em desabalada carreira, apareceu um homem, e, atrás dele, vinha um outro, em seu encalço, com um revólver na mão. Os dois – o perseguido e o perseguidor – não deram pela minha presença por entre os arbustos, e sumiram nos desvãos de meu sonho.

Depois da cena perigosa, retomei a minha caminhada e continuei, morro acima, o meu cansativo passeio. Nos incomuns entrementes do percurso, outros obstáculos surgiram, tais como alguns trechos problemáticos abarrotados de pedregulhos e lama. E a estreita trilha de meu sonho continuava despovoada.

Nesse meio tempo, consegui chegar à parte de cima da serra. Nesse trecho do trajeto de meu sonho (ainda à direita de meu ponto de observação), o tal caminho terminava em um outro, sobre a elevação montanhosa. Continuei tomando o rumo de minha direita e entrei no tal percurso, reto, um pouco mais largo do que o anterior, por cima do dito monte de base extensa. Dali, do alto, eu visualizava os dois lados. E a visão panorâmica era de uma beleza extraordinária, um cenário por demais colorido. Nesse espaço de tempo do sonho eu já caminhava descansada, sem os incômodos próprios dos tais entrementes do pesadelo inicial.

Depois de muito andar, eu percebi que o dia ensolarado já estava se aproximando do declínio, como se eu já estivesse a andar sem destino na parte da tarde. Senti-me momentaneamente agoniada, pois não enxergava por ali, para o meu conforto, nenhum abrigo disponível. No sonho, eu tinha pleno controle de minhas emoções, pois estava consciente de minha solidão, ali, naquela estrada de terra, ao entardecer, no alto de uma desconhecida montanha. E já estava também começando a sentir uma espécie de medo, pois me percebia ansiosa e expectante, como se algo extraordinário estivesse por suceder-se. O meu olhar percorria o cenário, buscando uma solução para o impasse de meu próprio sonho.

Foi então que uma grande casa (com a porta e as janelas abertas) apareceu, diante de mim, como que por encanto. O caminho do alto da montanha terminava nela. A casa estava espantosamente iluminada, por fora e por dentro. Ainda não era noite e a tal casa brilhava diante de meus olhos maravilhados. Corri em sua direção, para abrigar-me.

Não havia cercas ao redor da casa. A porta de entrada estava aberta e iluminada, assim como as janelas. Um pouco receosa, entrei no grande salão estranhamente vazio. Não havia móveis em seu interior (um único e imenso cômodo), mas, as inúmeras lâmpadas iluminavam-na de uma forma extraordinária. A incomum luminosidade abrangia todo o aposento, alcançando também o lado de fora, translucidamente. Dominada por uma atmosfera de deslumbramento, vi-me envolvida por aquela luz intensa.

Acordei, logo a seguir, com o impacto do climax do sonho. Não me lembro de ter saído daquela incrível casa, completamente transbordante
de luzes.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: A MONTANHA OCA, A LARGA RODOVIA E O MAGO-OURIVES - 5

NEUZA MACHADO



SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: A MONTANHA OCA, A LARGA RODOVIA E O MAGO-OURIVES - 5

NEUZA MACHADO

Eis o sonho:

Eu estava em uma casa, no campo, em visita à minha prima (Nelci), nos arredores da Cidade de Divino do Carangola, em Minas Gerais. Entretanto, a casa não era a mesma residência de minha prima (aquela que conheço). O lugar era diferente, mas, no sonho, a minha prima Nelci era a proprietária das terras e do casarão.

No auge do que me lembro, eu já estava de saída e me despedindo.

Pois foi a partir da despedida, com abraços e promessas de breve retorno, que descortinei o cenário do sonho. As terras e o casarão ficavam em um lugar plano (totalmente diferente do lugar verdadeiro e montanhoso em que a minha prima mora), mas (ainda no sonho), repleto de flores e arbustos muito verdes, onde se localizavam alguns animais.

Em algum flash do sonho, minha prima acompanhou-me até ao portãozinho, que ficava em frente à sua casa. O terreno, que comportava o casarão, era todo cercado por arame liso (uma cerca baixa), entrelaçado com vegetação florida. Em frente, existia um caminho estreito, de roça, rente a uma montanha (que ficava em frente à residência do sonho).

Explicando melhor, as terras campestres e o casarão do sonho se localizavam na base da montanha. Ao longe, em um plano superior, em ângulo para a minha direita, visualizei um trecho de uma grande rodovia de muito movimento, na parte de cima da dita montanha.

Muito ao longe (ainda, em ângulo para a minha direita), detectei um ônibus em movimento, vindo à minha direção. Eu o visualizava bem pequenininho, por causa da distância. Entretanto, muitos carros passavam em disparada, na rodovia, na parte superior da montanha.

Lembro-me de que, no sonho, falei para a minha prima: “Não conseguirei chegar até a estrada, para parar o ônibus. O caminho até ao alto é muito íngreme”. Mesmo falando, no sonho, eu via um caminho estreito, serpenteante, oblíquo, em direção à estrada. Foi aí que a minha prima respondeu-me: “Você não precisa ir por aquele caminho. Passe por dentro da montanha. Dentro dela existe uma saída que vai dar na estrada, aí em cima”.

Despedi-me às pressas de minha prima e entrei em um grande orifício da montanha (uma espécie de portal rudimentar), o qual ficava bem defronte ao portão de entrada do casarão, em busca do caminho até à estrada. E a minha surpresa, mesmo sonhando, foi imensurável!

Nessa etapa do sonho, vi-me dentro de uma extraordinária cavidade. A montanha era totalmente oca. E, ali, existia uma movimentação febril. Era como se fosse uma Grande Cidade, com pessoas andando de um lado para o outro. Alguns trabalhadores escavavam-na, dirigindo poderosas escavadeiras motorizadas. E usavam capacetes para protegerem as cabeças. E o lugar era mesmo uma montanha interiormente escavada, com reentrâncias nas paredes escarpadas, e muito pedregulho nas laterais. E aquela agitação toda não se harmonizava, em absoluto, com o início do sonho, vivenciado em um ambiente campestre.

Em meio ao burburinho, procurei sofregamente o caminho de saída para a estrada, pois, pela minha perspectiva sonambúlica, o ônibus almejado já estava próximo.

Foi então que avistei o tal caminho.

O caminho, dentro da montanha, se direcionava em sinuosidade até a uma pequena fenda, no alto, em ângulo para a minha esquerda. Pela base, começava largo e, ao longo das reentrâncias, se ia afunilando, até chegar à abertura, no ponto mais elevado. No reduzido orifício de saída se percebia uma difusa luminosidade, como se fossem raios de sol. Muitas pessoas - homens, mulheres, adolescentes e crianças - caminhavam, subindo em ziguezague, a direção da minúscula abertura. Ansiosa, entrei no cortejo. E, de repente, incomuns obstáculos começaram a se desenvolver.

Inicialmente, comecei a caminhar com tranquilidade, conversando animadamente com uma jovem e um menino de uns cinco anos, mais ou menos. Ao longo da caminhada, comecei a sentir cansaço, respirava com sofreguidão, pois a subida começava a se tornar difícil. Em um dado momento, o caminho desapareceu, pois, para retomá-lo, havia a necessidade de escalar uma pequena escarpa, evidentemente em aclive e verticalmente. Muitas pessoas, à minha frente, já estavam realizando a proeza, mas, quando chegou a minha vez, percebi que a jovem e o menino não estavam conseguindo escalar o atalho, repleto de pedregulhos e terra solta. Vi-me ajudando-os. Primeiramente, empurrei a jovem para o alto e, rapidamente, ela se pôs a caminhar, acompanhando os outros. Depois, fui ajudar o menino. Aí, tudo se complicou, porque ele pesava muito. Eu me sentia cansada, respirava com muita força e meus braços doíam, na ânsia de empurrá-lo para cima. Até que ele conseguiu e se foi, sumindo de minha visão.

Não sei como, milagrosamente, eu também consegui escalar o pequeno atalho. Fiz muito esforço (disso me lembro bem), pendurando-me nas fendas da parede de pedra, até alcançar a pequena trilha. E me vi caminhando, em meio a muitas pessoas, já descansada, em direção àquela luz do orifício afunilado, à saída da montanha, pelo alto, para a estrada de rodagem.

Quase na saída, no pedacinho iluminado pelo sol, percebi o chão de terra fina e fofa. Naquela macia camada de terra, alcancei vislumbrar pequeninas jóias de ouro - anéis, brincos, camafeus e, inclusive, pedrinhas brilhantes -, faiscando, graças à luz que entrava no orifício, mas, só eu as via, os outros caminheiros passavam com as cabeças erguidas, sem olhar para o chão. Entretanto, não toquei em nenhuma jóia, somente as admirava, enquanto caminhava. E nesse momento do sonho, já não conversava com os outros caminhantes.

Relembrando o sonho, depois desses anos todos, tenho a convicção de que me encontrei em apuros para sair da montanha. O orifício era muito estreito e tive de estirar-me ao chão, como uma lagarta, ansiosa por ver-me à luz do dia. O mais interessante é que os outros saíram normalmente, caminhando eretos, o que não foi o meu caso.

Mas, ao sair, deparei-me com uma estrada magnífica, ultramoderna, larga e movimentada. E vislumbrei, ainda longe, bem distante, o mencionado ônibus, o qual, certamente, me levaria a algum lugar.

Contudo, ao sair da montanha, vi um homem louro, cabelo meio comprido, a se parecer com um pajem antigo, sentado em um tamborete, cinzelando as tais jóias, que foram vistas anteriormente. Ele estava de costas para a tal saída da montanha e, logo que terminava uma peça, jogava-a na fenda, displicentemente. O ourives possuía uma aparência medieval e usava um macacão dessa época. Na verdade, hoje, posso afirmar que ele se parecia com o Mago do Tarô Tradicional. Em meu sonho, o ourives continuou com a cabeça inclinada para baixo, trabalhando diligentemente, e não me olhou, não se surpreendeu com a minha presença. Parecia não fazer parte daquele lugar.

Finalizando, o ônibus chegou em tempo, para que eu pudesse nele viajar. E eu entrei nele. E, com certeza, o sonho continuou, mas, não me recordo do que aconteceu depois.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: A VIAGEM - 4

NEUZA MACHADO


SONHOS DILATADOS E BEM LEMBRADOS: A VIAGEM - 4

NEUZA MACHADO


Nessa época, eu já estava morando na Rua Garibaldi, na Tijuca. Ali, muitos sonhos interessantes povoaram as minhas noites, pois o prédio em que eu morava era muito silencioso. Aos poucos, pretendo relatá-los.

Em um deles, eu estava a sair de casa na parte da manhã. Ia ministrar duas provas em uma Universidade. No sonho, eu me vi saindo de meu apartamento.

Ainda o sonho: Cheguei a um local – desconhecido – para o trabalho regular e para ministrar as ditas provas. Movimentei-me na sala repleta de alunos (alunos desconhecidos) e distribuí as provas. Eles estavam comportados e compenetrados, elaborando as questões propostas.

No intervalo de uma prova para a outra, por algum motivo inexplicável, saí rapidamente, pretendendo voltar, logo a seguir, para aplicar a segunda prova.

Já na rua, comecei a caminhar a passos rápidos. Como estava com muita pressa, um jovem desconhecido motorista, com cabeleira louro-dourada, esvoaçante, que passava por ali em seu automóvel vermelho, com o teto de lona arriado, diminuiu a velocidade do veículo e se aproximou de mim, oferecendo-me um grande embrulho. Quando abri o embrulho, vi que eram passagens de metrô, acomodadas em tiras compridas, subdivididas, para serem destacadas, ou seja, tiras de passagens semelhantes a invólucros de band aid. Logo a seguir, o motorista louro, deu-me carona até ao Viaduto que fica antes da Praça Onze (o afamado Viaduto Paulo de Frontim do Rio de Janeiro). Em meu sonho dinâmico, o carro esporte vermelho, com a capota arriada, chamava a atenção dos passantes. Em um determinado momento, saí do automóvel brilhante, agradecendo a carona.

Ia atravessar a rua movimentada quando, na terceira passada, um grande caminhão de transportes bateu violentamente em mim. Levantei-me do chão e o caminhão desapareceu como em um passe de mágica. Uma vez que não havia sofrido nada, atravessei a rua e continuei, tranquilamente, o meu caminho, a direção do ponto de ônibus.

De repente, ao invés de estar no ponto de ônibus, vi-me em um quartinho apertado e um pouco comprido, onde algumas pessoas, em fila indiana, esperavam para comprar a passagem. Fiquei na fila unicamente para não perder a minha vez de entrar naquele lugar desconhecido, pois já possuía o ingresso (oferecido anteriormente pelo motorista louro).

Uma senhora negra era a primeira da fila e se encontrava rente a uma porta metálica. Eu era a sexta. Quando olhei à minha volta, o quartinho estava cheio de pessoas que esperavam entrar em algum lugar desconhecido.

Olhei para cima, obliquamente, e vi uma pequena janela no teto do quartinho, na qual um rosto de mulher me observava fixamente. Ao ser surpreendida por mim, fechou a abertura.

Nisto, ouvi o barulho de uma locomotiva e, imediatamente, a senhora negra tentou abrir a porta. Conseguiu abri-la e quase foi lançada em direção ao nada. Isto, porque o quartinho se movimentava (como se já fosse o próprio trem) e só por milagre ela conseguiu se segurar. Não havia plataforma, não havia trilhos, não havia estação, mas o quartinho passou a representar um vagão de trem. A senhora negra, retrocedendo, afastou-se um pouco e a porta fechou-se como se fosse encantada. Se antes não havia assentos no apertado recinto, esses apareceram milagrosamente. E o quartinho superlotado se transformou em um veículo de viagem. Vi-me sentada perto da janela, tranquila, apreciando o panorama cinematográfico que se apresentava diante de meus olhos (os assentos já ocupados e muitas pessoas de pé).

O quartinho corria velozmente, em aclive, sobre trilhos imaginários. Em meio à movimentação do sonho, visualizei cenários incríveis, parecidos com as terras de faroeste americano. A terra era vermelha e poeirenta, exatamente como aquelas apresentadas nos filmes americanos, e o quartinho corria velozmente, sempre em aclive.

Olhei novamente os passageiros e dei de cara com o rapaz louro, belíssimo, aquele que havia me dado o embrulho com os bilhetes e me oferecido carona em seu automóvel esporte vermelho-brilhante. Não sei explicar o motivo, mas ele também apareceu no interior do pequeno quarto em movimento, incluindo o seu incomum veículo vermelho.

Gritei para ele (o barulho do trem era insuportável) que eu não iria conseguir voltar a tempo para ministrar a segunda prova. Ele, aos gritos, respondeu-me que não me preocupasse, pois haveria tempo sobrando, que aproveitasse o máximo do duradouro passeio, pois era relaxante, e eu estava precisando de um longo período de entretenimento.

Não saí do quarto-vagão. Acordei, repleta de uma incomum felicidade.

O sonho permanece vívido em minha memória. O motivo? Antes que esquecesse de todos os detalhes, registrei-o em uma caderneta, imediatamente, ao acordar (antes mesmo do asseio matinal, para o café da manhã).

Sempre relembrando o sonho, tantos anos passados, percebo que, até hoje, a minha vida corre velozmente sobre trilhos imaginários, em meio a infindáveis sonhos de felicidade, e, sempre, procurando realizá-los. De vez em quando, presa às imposições vitais, detenho-me, para consertar alguns trilhos descarrilados.