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domingo, 29 de novembro de 2009

ODISSÉIA MARIA - XXV

NEUZA MACHADO




ODISSÉIA MARIA

NEUZA MACHADO



VIGÉSIMO QUINTO CANTO



mas, como eu ia dizendo, viajo agora em meu Imaginário Avião Supersônico fabricado na Cidade Maravilhosa e Fermosa dos Cariocas Intrépidos, quebrando as Barreiras Genéricas da Linear Narrativa Ordenada, para a invasão de um Novo Mundo Espiralado e Profundo no Próximo Terceiro Milênio da Era de Aquário; um Avião Supersônico pra lá de arretado, voando e voando através dos tempos, vou passando e voando sobre Antigas Cidades, vejo os Templos Tão Firmes de Jerusalém, as Pirâmides Antigas do Antigo Egito, proprietário daquele outro Grande Rio Sagrado, o Rio Nilo Fermoso Adorado na Época da Fartura de Trigo, vejo as Tumbas Memoráveis dos Faraós Memoráveis, mas sofro e choro quando a seca vem e acaba com os grãos de trigo que darão o pão, e o Povo Antigo sofrendo, sofrendo, o Povo da Antiga Nação implorando a seus deuses muita proteção, a abundância voltando a reinar no Egito pelas mãos de José Neto DeLabão ― óh! Assinalado José dos Hebreus!, salve o Brasil da Fome Voraz! ―, aquele José tão amado pelo Deus de Abraão, ele foi vendido pelos próprios irmãos ao Faraó divinizado, tornou-se escravo maltratado, depois, foi transformado em seu braço direito, poderoso, o Deus dos Hebreus jamais o abandonou e fez dele um Grande Adivinho, sim! Senhor!, e o José do Egito, o José dos Hebreus, salvou a Nação da fome feroz, guardou os grãos preciosos para o momento mais crítico da fome implacável, José do Egito soube estocar e guardar; e o povo aceitou seu inteligente comando; o José do Egito não roubou os egípcios, não roubou o povo que o adotou e amou, não! Senhor!, na época da fome distribuiu a farinha, antes guardada nos celeiros reais, o povo egípcio não morreu de fome; época incrível, meu Deus!, os governantes egípcios se preocupavam com o povo!; neste Anno de 1999, não sei não!, aqui, no meu Brasil Varonil, neste início de 1999, não sei não!, mas, como eu ia dizendo, vou viajando na Carruagem do Sonho Doloroso, que pena! meu Sonho do Agora não é um Sonho Fermoso!, vejo o Sertão do Brasil Varonil, o Povo Infeliz do Sertão Sem-Tostão morrendo de fome na seca inclemente, não tem José do Egito aqui para resolver a questão, o Povo da Seca, neste início de 1999, preste atenção!, espera o Sertão virar Mar, os peixes do mar invadindo o Sertão, se o Sertão virar mar, a fome acabará, o Pobre do Brasil Varonil terá peixe em perene abundância na refeição, mesmo sem pão, a água salgada matará a sede terrível, o Sertanejo do Brasil Varonil transformará a água salgada em água doce tratada, descobrirá com certeza uma engenhoca pós-moderna para retirar o sal da Água Encantada do Mar do Sertão, fará a água salgada se tornar água doce bebível, o Sertanejo, neste início de 1999, preste atenção!, espera o Maná, o maná cairá do Céu do Brasil Varonil quando a seca chegar; porém, maná que é maná não existe acá no Reino do Ão e do deusdará, se existir maná, o rico o venderá, um rico qualquer registrará o maná do Sertão Nordestino, fará com que o maná seja de sua propriedade e venderá o maná aos pobres coitados de lá, até os ossos raspados de animais consagrados são comercializados no Mundo Global, se transformam em farinha, têm muito cálcio para fortificar os ossos dos Homens Ricaços, a farinha de ossos vai mesmo é para a mesa do rico, agora, só os ricos comem farinha de ossos, o pobre não tem direito à nutritiva farinha de ossos, a farinha de ossos é um alimento caríssimo, tem muito cálcio, é saudável, nem mesmo os ossos sobraram para os pobres terráqueos sem-eira-nem-beira, aqui no meu Brasil Varonil, neste Final de Segundo Milênio; as pelancas de carne antigamente nada valiam, hoje valem muito dinheiro; tudo agora é vendido na Terra do Ão!; as sobras de carne, no passado, eram distribuídas aos mendigos da rua, agora, salgadas e ensacadas, em bellíssimas embalagens atraentes, atraem os fregueses, perdão!, os Clientes dos Grandes Maravilhosos Hipermercados, Imensas MegaLojas de arrepiar os cabelos praláde compridos, as ditas pelancas de carne são vendidas para o hiper endinheirado consumidor, o consumidor rico, meu Futuro Leitor, os pedacinhos de sobras de carne, salgadas e ensacadas, agora vão para a mesa do sabido ricão, os ricos compram pedacinhos de sobras para a feijoada ou para colocar na sopa do Domingão do Faustão, agora, neste início de 1999, é chique comprar sobras de carne, nem as sobras sobram mais para o trabalhador sofredor, aquele trabalha, trabalha, trabalha, nem mesmo as sobras de carne salgada ele pode comprar, agora (não s’esqueça jamais!, início de 1999), no Brasil Varonil, é chique comprar sobrinhas de carne bellamente ensacadas nos Hipermercados, enquanto isto o dinheiro altaneiro sobra no Banco dos Grandes Onzeneiros e Milhardeiros e Bilhardeiros e Mega Megatrilionários do Reino da Ilusão e do Ão, o dinheiro do rico onzeneiro, quero dizer, Leitor!, as sobras se transformaram em comida de rico neste final de Século/Milênio famigerado famoso (olhe a redundância da ganância, Leitor!), os Mestres-Cucas de Comidas Malucas da Televisão Mundial e do Brasil Varonil que o digam, não mais se oferecem sobras de comida aos desamparados famélicos, agora (final do Século XX, 1999, prest’atenção!), tudo se reaproveita, com muita paixão!, para o dinheiro render no Bolso do Rico Patrão, não se reparte mais o Pão Consagrado e o Vinho Abençoado na Terra do Ão,

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

ODISSÉIA MARIA - XXIV

NEUZA MACHADO



ODISSÉIA MARIA

NEUZA MACHADO



VIGÉSIMO QUARTO CANTO



mas, como eu ia contando, só alegrias valem lembranças!, hoje, 27 de janeiro de 1999, Penúltimo Anno do Século XX e Penúltimo Anno do Milênio de Peixes, eu estou esperando extasiada o Grande Momento, a Passagem Para o Terceiro Milênio, sem acreditar em tamanha Sorte, meu Deus!, só os assinalados testemunham as Grandes Passagens do Mundo, e este será um Acontecimento Sem-Igual, e eu estarei viva, vivíssima!, se Deus quiser!, daqui a dois anos presenciarei a Passagem do Milênio de Peixes Praláde Emotivo para o Milênio de Aquário Indiferente e Internáutico, e verei os Fogos de Artifício no Céu, e presenciarei o Grande Espetáculo da Terra do Alto de um Edifício de Oitenta Andares, na Megalópole Mais Linda do Incrível Universo-Sem-Fim, o Mundo celebrando a Passagem Esperada, feliz da vida!, a profecia de Nostradamus não se realizou, as inúmeras profecias apócrifas não se realizaram, não se realizarão, graças a Deus!, o Mundo girando, girando, girando em volta do Sol Apolíneo, o Mundo continuará gira girando em volta do Sol, o Planeta Terra resistirá às intempéries, aos meteoritos caindo do céu, o mundo continuará resistindo ao desleixo do próprio Homem, o Homem não cuida com carinho de sua Morada; mas, como eu ia dizendo, só os Eleitos testemunham as Grandes Mudanças, e eu me sinto quomodo um ser assinalado; quomo, como, quomodo Você quiser!; somente os privilegiados testemunham as Grandes Ocorrências do Mundo Rotundo e Profundo; ser privilegiado sou eu!, meu Romeu!, estou aqui, permanente, atemporal, alicantinosa, epo-ficcional, agora, viajando num Avião Supersônico Veloz, descrevendo influente o Momento Enrolado de Uma Guerreira Mulher no Final do Milênio de Peixes, no Final do Século XX ― pesquise aí no seu Futuro Sem-Muro essas minhas palavras aladas ―, ao mesmo tempo, estou conversando com Você; Você ainda nem nasceu, meu Netinho!, mesmo assim, Amorzinho!, guarde bem as minhas palavras asadas, somente os Puros Eleitos Testemunham as Grandes Mudanças!; eu fui abençoada na hora de meu nascimento, um deva mineiro, um brilhante poeta, instalado em um interstício espaço de luz, entre os seres divinos e os pobres mortais, um deva magrinho careca e de óculos, sussurrou de looonge, láááááá em Diamantina, e o sussurro dele chegou até aos meus ouvidos de recém-nascida, “Vá, Odisséia Maria Ulissiponense da Grandiosa Selva Mineira - Divino - Carangolana - Greco - Romana - Francesa - Italiana - Hispano - Africana - Portuguesa - Brasilana, vá apreciar os Incomuns Acontecimentos do Mundo Profundo!, vá procurar, entre as Íngremes Montanhas de sua Terra Natal, um Sumetume Iluminado e Arejado, para você se evadir das normas severas de seus ancestrais e do mundo real, para você viajar pelo Espaço Estelar numa Aeronave de Cores Rosadas Azuladas Argentadas e Douradas, de mil matizes multicolores”, e isto aconteceu em uma madrugada de segunda-feira, no mês de novembro de quarenta e seis, com o Sol a 3º de Sagitário, o nono signo do zodíaco ocidental, quando o Sol Hipermineiro apontava no Belo Horizonte Faceiro de Minha Terra Natal, com seus magníficos raios luminosos, quando a Aurora Fermosa com seus dedos de rosas surgiu matutina e o Centauro Quirón, um velho habitante das Serras of Hinterland de Minas Gerais, se preparava para percorrer seus vastos domínios, atirando Flechas Brilhantes ao acaso ou em direção ao infinito sem-fim; mas, quomodo eu ia dizendo, somente os assinalados reconhecem os Importantes Momentos da Humanidade, óh, maravilha!, estou incluída entre esses poucos ditosos!, não fui esquecida na hora do meu nascimento, não, mesmo nascendo nas Brenhas do Grande Sertão, nas Serras of Hinterland de Minas Gerais, em uma pequenina cidade de belezas tais, melhor dizendo, em Santa Luzia do Carangola, uma velha cidade da época do esplendor do café, proprietária de um velho tupi yekiti’bá centenário, centenário é pouco para valorizar o rosa yekiti’bá em questão, talvez ele já exista desde a Descoberta do Brasil Varonil, uns quinhentos ou quatrocentos annos para o meu jekiti’bá orgulhoso, um jequitibá gigantesco, ele resistiu a um incêndio sem-igual, incêndio provocado per algum maluco descuidado, quase acabando com o jequitibá-rosa de quatrocentos annos, Amor!, mas o Povo da Terra lutou pelo jequitibá varonil, salvaram o jequitibá glorioso, o precioso patrimônio do meu conterrâneo tradicional, patrimônio afetivo daquela Cidadezinha Campestre, incrustada num Alto de Serra Of Hinterland da Zona da Matta Mineira Guerreira, amada idolatrada e adorada por mim; mas, como eu ia dizendo, viajo pelo interior de mim mesma buscando recordar os justos valores que nortearam a minha vida aqui nesta Terra Azulinda, dês aquele longínquo novembro, 2a feira, quando o Sol hipercarangolense iniciava a sua visita ao signo de Sagitário Cordial Vagamundo, no Criador Espaço Vazio Bashôniano Profundo entre a noite e o dia, quando a Aurora Fermosa com seus dedos de rosa surgiu matutina, 3º de Sagitário, ascendente em Escorpião ou Sagitário, não sei!, descubra aí no Futuro Sem-Muro, Amor!, aplacando a sua saudável curiosidade sobre a minha idade, Leitor Esotérico do Século XXI e Seguintes!, sabendo alicantinosamente que Você estará interessado nesta Minha Viagem Grumosa e Enrolada, procurarando compreender e julgar os encontros e desencontros de uma mulher de cinqüenta, Sumaca Antiquada dos Mares Revoltosos do Século XX, no Final do Milênio de Peixes, Você sentirá curiosidade em relação a esse meu período de tempo vivido aqui nesta Terra Azulinda de Deus Protector, em um momento muito conturbado e belicoso, naquele novembro assinalado no tempo, suspenso entre o Antes e o Porvir, com a Vênus Madrinha Retrógrada em Escorpião, ela me salvou de um destino amoroso meio aloucado, mas também me prejudicou horrores, saiba Você!, meu Amor!, Vênus Bella Assanhada estava andando para trás!, meu Rapaz!, não me premiou com líricos amores com super-homens românticos!; veja só!, estou aqui a me queixar de Vênus Madrinha!, estou reclamando de Vênus Afrodite de Traços Perfeitos!; saiba Você que Marte Amoroso dos Grandes Casos Sentimentais nunca me faltou, não Senhor!, os annos passam e eu continuo recebendo inúmeras porções de amor!; no entanto, quomodo boa sagitariana, de acordo com os Novos e Interessantes Vaticínios do Mundo D’Ágora, já distantes dos Terríveis Oráculos do Destino Pagão, nem sempre retribuo com a mesma moeda; mas vou levando a vida com muito jeito, se hoje não tem, amanhã deusdará, deusdará o que me faltar, mas vou levando a vida com muito cuidado, solitariamente fechada em meu Casulo de Bicho da Seda Tijucano; de qualquer modo, com Júpiter e Mercúrio em Escorpião no Mapa Astral de Nascimento, os dois, naquele dia sem-guia, estavam em Escorpião, o meu signo ascendente de proteção, ou será Sagitário?, Escorpião no ascendente me faz pensar duas vezes, de vez em quando refreia e embonda pra valer o meu entusiasmo sagitariano, mas o grande barato mesmo foi nascer com Urano Onomatomante em Gêmeos Falante, minha romântica Casa Sete do Casamento no Horóscopo Solar e Casa Oito no Mapa do Ascendente; eu tenho mania de onomatomania, uma preocupação obsessiva e doentia com a escolha de palavras, estou vivendo a última fase do período pós-cambriano, iniciado há milênios na Antiqüíssima Câmbria, penso que estamos vivendo um algonquianismo meio às avessas, a Vida Amorosa está se extinguindo na Terra per culpa das próprias ações insensatas dos Homens; pratico também a onomatomancia, adivinhação fundada no nome da pessoa impressionável; às vezes, pratico também a nefelomancia, invadindo os domínios de Zeus-Júpiter que as nuvens cumula, durante as minhas epo-ficcionais viagens de avião supersônico, Aeronave Brilhante, Espacial, Especial, Viajando Sem-Rumo pela Galáxia Estelar; assim meus Sonhados Amores foram todos estranhíssimos, uma grande atração por gente estrangeira, ouvindo palavras de amor em língua enrolada, até mesmo palavras de amor em língua tibetana pronunciadas per aquele jovem tibetano pisciano que poderia, ai, Jesus!, ser meu filho, a quem ensinei em dois meses a falar português-brasilês, e ensinou-me o caminho da verdadeira felicidade búdica na Terra, e os librianos estrangeiros residentes no Brasil Varonil!, sem falar nos virginianos estrangeiros e brasileiros que me cercam loucamente, exigindo qu’eu seja ordeira e certinha, criticando abertamente o meu modo de viver, e os ciúmes dos gentis cancerianos?, os cancerianos querendo cortar meu barato, querendo cortar as minhas asas rosadas, minha alegria de viver, quero dizer, mas o meu íntimo sagitariano das viagens impossíveis exige liberdade, quero o meu cavalo bem solto no Mundo Profundo, não quero saber de amarras reforçadas não, meu Irmão!, não aceito o ciúme e a inquietação no amor!, não senhor!, não quero ninguém pegando em meu pé com furor, ninguém pegando em meu pé pra valer; é verdade!, ambiciono muito amar, ser amada, eu quero, sim senhor!, quero ser amada até ao fim de meus dias na Terra, chegar aos cem anos ou mais amando loucamente, ensinando ao amado as regras do bem viver com lazer, ele na casa dele e eu em minha casa, de vez em quando um aconchego de amor, sou de carne e osso também, Deus me livre e guarde dos aproveitadores!; Deus!, me proteja dos sugadores de amor!, bom Deus!, afaste de mim os maiores abandonados!, esses homens-morcegos chupadores do sangue e dinheiro de uma anosa mulher!, eles merecem receber uma surra de toalha molhada à moda nordestina, pra reconhecerem o valor da mulher brasileira; mas, como eu ia dizendo, nascida em Carangola de Minas Gerais, amando e adorando o Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa do meu Brasil Varonil, mas sem nunca deixar de amar minha terra de origem, sem nunca abandonar os valores mineiros, trazendo comigo os valores do campo, respeitando os mais velhos, respeitando os humildes; não sou melhor do que ninguém, não senhor!, mesmo reconhecendo as bençãos recebidas ao nascer, pois, na hora do meu nascimento, os deuses de Hammurabi Babilônico e um deva mineiro, da Cidade de Pedra, pronunciaram meu nome, vá, Circe Irinéia Maria dos Ficcionais Épicos e Poéticos Sonhos de Glórias Viajar Pelo Mundo, pelo Mundo Rotundo, vá conhecer um certo filósofo francês-camponês dos Campos Vinículos da França dos Reis, um filósofo francês nascido no campo, vá conhecer o barbudo filósofo camponês, aquele que soube, quomodo ninguém, defender O direito de sonhar neste Mundo Rotundo e Profundo, vá Odisséia Maria Grieco & Romanus amar Bachelard, suba com ele os Cogitos Superpostos dos Pensamentos Maiores, não ligue jamais para os Estreitosos que não apreciam as Redundâncias Vocabulares da Língua Brasileira-Portuguesa, elas abrilhantam as estampas dos doutores altaneiros do Brasil Varonil, não procure nunca um Benday para a Arte Final Sombreada dos seus Casos de Amor, viaje com ele até ao cogito três, pronuncia-se cógito, Leitor!, a palavra, meu Amigo!, é de origem latina!, procure no Dicionário do Aurelião, meu Irmão!, e Você saberá, Você saberá o significado correto da palavra cogito; mas, como eu ia dizendo, o deva e os deuses disseram, vá Odisséia Guerreira Praláde Sortuda amar Bachelard, viaje com ele até ao cogito três, plano lacunar do tempo do pensamento, alcançado apenas pelos pensadores-eleitos; aqueles sábios indivíduos buscam o plano do espírito, o tempo espiritual, mas sabem de antemão que não alcançarão jamais, o plano do espírito está fora do plano vital, mas está próximo do tempo do pensamento real, fora do plano vital, entendeu?; o tempo espiritual não pertence ao plano vital; mas, atenção!, não esquente a sua cabecinha, óh! Leitor Amigo do Terceiro Milênio e Seguintes!, eu mesma custei a entender o meu amor Bachelard, o plano do espírito está tão próximo de nós, mas não o alcançaremos jamais, não senhor!, apenas sentimos sua proximidade, intuímos o que se passa do lado de lá; o plano vital é bem diferente do espiritual, por isso custei a entender o meu amor Bachelard, o Fascinante Sábio Francês me ensinou maravilhosas filosofias transcendentais, acompanhou-me naquelas noites de amor e febre e paixão, noites tempestuosas passei com Bachelard ao meu lado, naqueles annos vibrantes da década de oitenta, enquanto entretanto eu escrevia a minha tese sofrida, e o Bachelard cuidando de mim com amor; e o João Cordisburgo também me protegendo, mui sedutor, quero dizer, o adorável mineiro escritor soube me seduzir com suas palavras aladas, digo, o adorável mineiro soube me seduzir ficcionalmente quomodo ninguém, foram horas e horas com os livros dos dois ao meu lado, num triângulo amoroso pra lá de esquentado, foram horas e horas passeando filosoficamente com Bachelard nos campos fermosos de sua fermosa Champagne, entre uvas e flores, bebendo o bom vinho francês; foram dias e dias, e horas e horas, e minutos e minutos, também, com o meu ficcional amor conterrâneo, o inesquecível João, passeando pelas Veredas do Grande Sertão, meu Irmão!, foram noites e noites embalada pelas Primeiras Estórias, Estas Estórias e outras estórias, Leitor!, sem falar nos outros livros do Inigualável Rosa, semelhante àquele deus antigo que as nuvens cumula, o Grande Rosa que me fascinou; segundo o meu Anjo-Guru Amazonense Rochel, o João Rosa era um homem singular; não conheci o preclaro escritor, dos divos Guimaranes descendentes, de um Estado Suevo da Lusitânea, enquanto ele viveu aqui nesta Terra de Deus, conheci apenas o João Escritor, sua face de incomum narrador, caminhando miticamente ao seu lado pelas Veredas do Grande Sertão; o João Narrador do Sertão ainda vive em minhas lembranças, eu o amei loucamente naquelas noites ficcionais, argentadas, douradas, rosadas, de mil cores azuis-matizadas, ainda ouço suas palavras de amor e carinho; o Dom João Cordisburgo era um Prestidigitador, um Grande Mago Literário, um Artista Sem-Igual, de valor, às vezes, naquelas noites dinâmicas, agitadas, febris, ele se transformava em Riobaldo Valente, eu me via transformada em Diadorim, a guerreira dos olhos verdes brilhantes, quero dizer, eu me via transformada em Maria Deodorina Valente e Pudica, a Virgem Fermosa dos Olhos Glaucos de Athenas, aquela foi em vida um destemido jagunço, parenta longínqua da corajosa Princesa Guerreira da Literatura de Cordel do Sofrido Nordeste Europeu-Brasileiro, para agradar a seu pai, o destemido rei-patriarca desejava um filho guerreiro!, saiu pelo Mundo Medieval em sangrentas batalhas, em vitoriosas pelejas de guerra, mas, de acordo com a lenda, foi vencida na Guerra do Amor, transformando-se depois em virtuosa esposa-rainha; a Diadorim-Deodorina, do meu grande escritor, não teve um final tão feliz, meu Leitor!, ela se figurou de jagunço-guerreiro e se fechou para o amor redentor, e sofreu pra caramba, a guerreira-donzela não pode revelar seu segredo de amor, mesmo assim, não conseguiu se desviar da paixão per Sir Riobaldo Sofredor de Trabalhos Sem Conta, quero dizer, do amor do Grande Tatarana Urutu-Branco das Guerras Sertanejas Dilatadas e Míticas, ele muito chorou, não se conformou em sentir atração per um homem fermoso e dengoso, de verdes olhos encantados; não se esqueça, meu Leitor!, a Maria Deodorina estava disfarçada na figura de um bravo jagunço, e Riobaldo Guerreiro, parente do Monsier Robert Le Diable Cavaleiro Francês, não sabia disso não, mas Diadorim era na verdade Maria Deodorina, Linda Mulher de Olhos Verdes Fermosos, mais bella do que a Princesa Magalona e a Encantadora Donzela Teodora e a Imperatriz Porcina do Cordel Nordestino, vestida de homem-jagunço et cœtera, etc e tal, mas o infeliz Riobaldo não sabia disso não, e o coitado do moço sofreu pra caramba, Leitor!, Riobaldo Tatarana Guerreiro sofreu por amor, per amor a um jagunço de olhos verdes fermosos, o destemido Riobaldo só descobriu o engano quando Diadorim, a dos mistérios profundos, jazia estendida no leito de morte, por ter lutado e matado o cruel Hermógenes; o Hermógenes Canhoto também a feriu com a morte fatal; só depois da morte sofrida Diadorim mostrou-se mulher, mas aí já era muito tarde para Riobaldo Guerreiro, o amante não pode consumar seu amor, terminou seus dias, já velho e cansado, um barranqueiro-Caronte do divo São Francisco Du Mont, um rio eternal do Brasil Varonil, sofrendo a perda do amor sedutor, e muito o pobre sofreu!; no entanto, se você quiser conhecer a vida aventurosa de Riobaldo Tatarana Jagunço Valente, leia Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa nos Séculos Vindouros, o maior escritor brasileiro do Século XX será venerado também pelos Leitores do Futuro Sem-Muro Equilibrado e Seguro; eu mesma, deste século atual de guerras sem-fim, amo e venero os escritores antigos, Homero e Hesíodo, narradores antigos, Século X ou IX ou VIII antes de Cristo, não sei!, grandes poetas épicos da Antigüidade Clássica; amo também os poetas líricos antigos, aqueles que habitaram as terras deíficas da Grécia de então, talvez no Século VIII ou VII antes de Cristo; reverencio todos os escritores da Idade Média Pré-Renascentista, Dante Alighieri D’Itália, Geovane Boccaccio e Francesco Petrarca; e ainda o divino Camões Português do Século XVI, digo, do Renascimento Português, ele deixou aos pósteros a epopéia mais bella e grandiosa existente, até hoje, em Língua Portuguesa quinhentista, a epopéia das aventuras marítimas do povo lusitano; óh! Povo praláde privilegiado!, conquistou o Mundo Rotundo e descobriu o Brasil e povoou o Brasil Varonil, no último Anno do Século XV, 1500, para ser mais exata, ainda hoje o Luís é reverenciado também por ter escrito lindos sonetos de amor, sonetos inspirados nos modelos maneiristas, reveladores do desconcerto do homem de então, o desconcerto do homem de uma mudança de Eras, do homem que saiu da Idade Média para a Idade Moderna, a Era das Grandes Navegações pelo Mundo de Deus e dos homens também, momento fatídico de Grandiosas Descobertas; a Era Moderna nos legou o Progresso, nos brindou com o desequilíbrio existencial, o desequilíbrio e o caos, o desequilíbrio do Homem começou nos annos quinhentos, meu Equilibrado Leitor do Terceiro Milênio e Seguintes!, começou no Século XVI; eu por exemplo sou a mais desconcertada dos seres que passaram pelo Mundo Rotundo e pelo Mundo Profundo e não sei consertar concertando esta minha Viagem Sonhada; não sei concertar esta minha Viagem Encantada, digo, não sei consertar concertando esta minha Viagem Intrincada; mas, como eu ia dizendo, tudo isto aprendi em minhas peregrinações noturnas, lendo os grandes escritores, magistrais intérpretes de suas épocas, por isto registro tudo aquilo que vejo e interpreto nestas desorientadas palavras aladas, a minha época é belicosa, brumosa, não é brincadeira não, o Caos impera no meu Mundo Atual, o Século XX, até o Agora sem hora, é um Século de Guerras Desenfreadas, é irmão contra irmão, pai contra filho e filho contra pai, et cœtera e etc e tal; mas, como eu ia dizendo, aprendi tudo isto lendo os maiores escritores desse mundo de Deus dos Hebreus e também dos Cristãos; os grandes escritores souberam registrar suas épocas, e escreveram sobre tudo o que ouviram e viram e sentiram, e deixaram para os pósteros documentos preciosos, documentos reveladores quomodo eram seus mundos de então; dês Homero e Hesíodo o Mundo mudou, em cada época a História nos mostra um mundo diferente, os poetas e narradores, mesmo criando mundos ficcionais, denunciam as mazelas de seu mundo vital, de seu mundo real, mostram quomodo foi realmente o seu Mundo Global; assim, eu viajo no tal Avião Supersônico Praláde Veloz, ele voa e voa através dos Tempos, vou passando e voando voando voando sobre Antigas Cidades;

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

ODISSÉIA MARIA - XXIII

NEUZA MACHADO




ODISSÉIA MARIA

NEUZA MACHADO



VIGÉSIMO TERCEIRO CANTO



mas, como eu ia dizendo, a Sorte estava a meu alcance, num lance, segundo os Incríveis Magos Adivinhos do Século XX Final, no entanto, ela passou bem longe de mim, insensata que sou, simplesmente não atendi ao Oráculo, não joguei um centavo sequer, não Senhor!, não saí de casa em Busca da Sorte, mas sou uma sagitariana pra lá de sortuda, a Sorte por certo virá para mim, não preciso jogar para ter Sorte na vida, tenho a Sorte de possuir um Mundo de Sonhos, de sair por aí sem destino, sem aeroporto seguro, sem pouso, sem dogmas, viajando feliz numa Epo-Ficcional Aeronave Brilhante, tenho a sorte de ter nascido com Sorte, pois, na hora do meu nascimento, os deuses de Hammurabi Sétimo da Antiga Babilônia pronunciaram meu nome, e aquele deva mineiro magrinho e careca também, vai Doña Odisséia Maria Felix das Horas Felizes ser musa de poeta, vai dizer ao teu poeta Agustín, te quiero, te quiero, te quiero, solo tu és o amor de mis amores, e o divino Agustin mirando mis ojos, diciendo tener ganas de un beso mio, Agustin, dime si me quieres!, ya non me acuerdo de ti, Agustin!, usted nasció em setembro de 1900 e eu nasci em novembro de quarenta e seis, numa linda madrugada do dia 25, quando a Aurora dos dedos de rosa apontava no Horizonte Acima do Monte, com as Três Parcas Bondosas do Século XX tecendo meu destino, um destino diferente, é verdade!, de muitas aventuras incríveis, reais e imaginárias; as Parcas desta minha narrativa são todas bondosas!; as Parcas Antigas, Cloto, Láquesis e Átropos eram malvadas, elas fiavam, dobavam e cortavam o fio da vida; mas, como eu ia dizendo, o Agustin do passado distante preenchendo meu instante de paixão e amor, com seu canto mavioso e mui sedutor, eternamente gravado num disco de vinil, depois o disco antiquado foi repassado para um Compact Disc atual, totalmente recuperado por técnicas americanas do Final do Século XX, resgatando totalmente a voz do Cantor; no entanto, Agustin, você não é meu único Amor, Doña Maria Felix do Acapulco Monte Mineiro é uma mulher infiel, ela beija todos os atores de filmes americanos, digo, eu beijo todos os atores americanos do norte e do sul, sonho sempre que sou a mulher do mocinho, sou uma atriz de cinema beijando John Wayne às margens do Rio Vermelho ou Rio Bravo, não me lembro bem, e sou também a Odisséia Mineira do Leste Brasileiro, cansada das Guerras Inglórias do Final do Milênio de Peixes, amante ficcional do maior poeta da América Hispânica, aquele deiforme caleidoscópio desbravador sentimental da Cordilheira dos Andes, seduzindo e amando as chicas de lá, amanhã viajará o Tal pelo Mar do Caribe em um Magnífico e Invejável e Suntuoso Navio Fantasma, acompanhando amigável o divo Gabriel das Narrativas Insólitas; pois no jogo da paixão eu saio sempre na frente, eu sonho com o meu poeta latino flutuando no espaço, um deus caipira empunhando sua lança de guerra, conquistando as meninas e velhas do Rio, parolando e encantando as balzaquianas de acá, andando pelas calçadas de Ipanema Fermosa, bebendo cachaça e catuaba nos botecos do Rio, perseguindo as ninfas da Baía Sagrada, à noite retorna para o Olimpo dos Imortais Criadores do Mundo das Letras, andando nas Trilhas Inóspitas do Mundo Pralá de Profundo, do Mundo Amorfo, Sem-Forma, quero dizer, buscando sempre a palavra primeira, a palavra ainda não-pronunciada, a palavra impronunciada; mas, como eu ia dizendo, a noite passou, tive bellos sonhos mui coloridos, de madrugada, sonhei que estava em uma festa de sonhos, do alto da galeria enfeitada apreciando o espetáculo dinâmico, um grupo de jovens dançando dançando e encantando, com suas lindas vestimentas mui coloridas, dançando e encantando em um palco de areia, os jovens dançavam em uma das praias do Rio de Janeiro Vibrante, dançavam na praia do Arpoador, Leitor!, e os barcos coloridos desfilavam no mar, e era um espetáculo de rara beleza; meu Felizardo Ouvinte do Século Seguinte, no seu século, o Mundo será muito mais cordial, mais limpo e mais bello; os jovens cariocas dançavam e cantavam e encantavam, e eu, na galeria, apreciando o espetáculo, tendo ao meu lado o meu Anjo-Guru Amazonense Rochel; mas, como eu ia dizendo, a noite passou, e o 23 de janeiro de 1999 chegou, sim senhor!, com quatro planetas favoráveis no memorável Céu Astrológico, Sol, Júpiter, Netuno e Mercúrio, aumentando as minhas possibilidades de muito sucesso no amor, na sociedade e na profissão, e o Oráculo Vidente me empurrando pra frente, espere as boas surpresas que virão pra você!, mas não deixe de se divertir e amar!, curta cada segundo de vida ofertada!, os deuses do Olimpo, os deuses da Floresta dos Celtas, os deuses do Egito, os deuses dos Índios do Amazonas, os do candomblé, os deuses indianos e as divindades budistas, os astros poderosos et cœtera e tal, todos reunidos em um Grande Agorá olhando por você; solucione seus problemas da vida na Terra!, vá em frente, sem medo do Porvir, Odisséia Maria De Mente De Idéia!, cumpra seu destino no Mundo Vital!, você terá seu mundo de sonhos e et cœtera e tal, pois o Sol em Aquário lhe é favorável, os Sóis Aquarianos lhe envolverão, os aquarianos estão de olho em você, cuidado!, não se envolva com aquariano, não!, senão, adeus liberdade e viagens sem fim, os aquarianos estão todos à espreita, Mulher!, querendo laçar uma sagitariana feliz, e a liberdade é um bem precioso demais, cuidado com aquariano neste mês de janeiro, cuidado com aquarianos até 19 de fevereiro de 1999, depois, fique muito tranqüila, os piscianos perseguirão você; mas, como eu ia dizendo, Mercúrio está favorável em Capricórnio neste 23 de janeiro de 1999, e eu tenho de aproveitar as boas vibrações de Mercúrio Veloz da Astrologia Antiga e Moderna também, para trabalhar trabalhar e muito dinheiro ganhar; mas hoje é sábado e a Cidade descansa, vai descansar no domingo o meu Bem, e eu não poderei me valer de Mercúrio Veloz Falador, sou professora horista e não trabalho aos sábados, meu Amor!, mesmo assim, vou me aproveitar de Mercúrio Intrigante, não estarei tão falante quomo de costume, Mercúrio em Capricórnio me deixa acanhada, graças a Deus!, no dia vinte e sete, ele estará radiante em Aquário!, e eu também estarei bem falante, as Palavras Aladas me conduzirão a um Futuro Absolutamente Sem Muro, usarei a minha linguagem de filiação sumeriana, difícil e engrumada, entrarei na Carruagem Dourada do Tempo Incontido Quase Interdito dos Pensamentos Fervilhantes em direção ao Porvir, conversarei animada com os habitantes de lá, conhecerei as Cidades Antigas Flutuantes dos Desaparecidos Atlantes, descobrirei seus segredos incríveis e mirabolantes e et cœtera e tal; mas, como eu ia dizendo, retomando este fio enrolado de Ariadne Aracnídea Teceloa de Sonhos Impossíveis Dantanho, neste 23 de janeiro de 1999, Júpiter e Netuno também velam por mim; a Lua está momentaneamente em Áries, reforçando os meus loucos desejos de aventura e paixão, e eu vou sair por aí à procura do tal Supra-Homem Ideal, esbarrarei com ele a qualquer momento numa das esquinas das inúmeras ruas da Cidade Fatal, o Rio é a Cidade do Amor Sedutor, é a Cidade da Paixão, meu Varrão!, o Rio é a Cidade dos Amantes Divinos; São Paulo só serve para quem almeja ganhar dinheiro, só serve pra quem quer trabalhar e enricar; New York só serve para quem quer fazer compras e dinheiro gastar; os ricos do Brasil fazem compras em New York, entram em seus jatinhos e vão para New York, almoçam no Rio de Janeiro e jantam em New York, a Grande Cidade da América do Norte; mas, como eu ia dizendo, vou sair por aí, vou a Copacabana Bacana, ao Posto 4, na praia, neste 23 de janeiro de 1999, assistir ao show do meu aluno João, baterista de uma banda de música agitada, vibrante; as bandas de música, de 1960 per acá, já não são parecidas com as bandas de outrora, as saudosas furiosas bandinhas de minha infância mineira, tocando dobrados e valsas vienenses nos coretos das ágoras das pequeninas cidades do interior do Brasil, encantando as crianças e os adultos também, e os músicos todos com suas fardas azuis, com lindos apliques da cor do ouro velho, e os músicos todos com seus brilhantes instrumentos, espalhando pelo ar os sons maviosos, orgulhosos, tocando instrumentos de sopro, flauta doce, saxofone, trombone e pistom, vários outros instrumentos e et cœtera e tal, todos acompanhando a batida do bumbo, é pura emoção, meu Deus!, recordar isto tudo!, meu Pai tão amado foi trombonista da Banda de minha Cidade Natal, tocava marchas e hinos e encantava os habitantes de lá, naquelas tardes distantes dos annos cinqüenta, no Antigo Coreto da Ágora Central, um Bello Monumento Que Não Foi Tombado, aquela praça defronte à Igreja Matriz, a Igreja Matriz de Santa Luzia dos Cegos Videntes de minha Carangola Frajola, a mesma Igreja Católica de meu batizado, no dia treze de julho de quarenta e sete, meus pais e padrinhos (o Antônio e a Joanna, o José e a Rita) juraram em meu nome qu’eu sempre seguiria os preceitos romanos, adorando a Deus Pai sobre todas as coisas, rejeitando sempre as outras crenças infiéis; entretanto, todas as crenças acreditam em um Ser Supra-Divino, e todas elas acreditam também em um Céu Divinal, acreditam em um lugar especial, para onde irão os que acreditaram, e eu não posso atirar pedras nas outras com pedras!, não acredito que o meu Deus dos Cristãos aprovasse isso, não!, por isto, respeito as Águas Espirituais de Todas as Fontes Brilhantes; Compadre Meu Quelemém, aquele compadre também de Riobaldo Guerreiro, amigo sincero de João Cordisburgo dos Guimaranes de Portugal, foi quem me ensinou, ele segue os preceitos de um crente Matias, mas não deixa de ler os ensinamentos de Kardec, e de vez em quando vai ao candomblé dos deuses baianos; ainda tem também o meu Anjo-Guru adepto inconteste dos ensinamentos budistas, ele segue a orientação dos Sakias divinos, uma família budista de Katimandu, que outrora reinou no Lindo Tibet das Altas Geladas Montanhas, hoje o Tibet pertence ao povo chinês e et cœtera e tal, cujo chefe se chama Sakia Trinzin, e tem uma irmã sacerdotisa, a venerável e amável Jetsun Kushola, monja budista também, atualmente morando no Canadá, a Venerável viaja pelo mundo de avião supersônico, levando para o Racional Ocidente as Crenças do Oriente, invertendo a caminhada feita no passado pelos missionários de Cristo no Oriente; mas, quomodo eu ia dizendo, não fui ao show, não, não vi o meu aluno João bater o compasso de sua banda agitada, ele é baterista de uma banda de rock dos annos 90, o rock foi a trilha sonora de uma geração inteira, a geração barulhenta dos annos sessenta, os grandes rockeiros de então hoje são velhos sessentões; alguns já morreram!; Pink Loid, a Banda dos Rolls Stone, os Beatles, os rockeiros cabeludos dos annos sessenta, cidadãos mitológicos do Século XX; assim, João Baterista!, meu Aluno Rockeiro dos dias atuais!, vai ficar para outra vez!, na verdade, meus ouvidos veirotos são sensíveis demais, não agüentam os estridentes sons das bandas de rock atuais, os sons violentos e altissonantes são uma chuva de pedras nos meus ouvidos senis, longe está a década de sessenta de minha mocidade agitada, quando eu vibrava com os rocks da época, ouvindo as músicas loucas da juventude de então, dançando freneticamente a dança dos Beatles, e eu era jovem, bonita e muito faceira, dançava, requebrava e pulava, acompanhando o som daquele ritmo infernal, e foi a época de minha rebeldia, Leitor!, os jovens dos anos sessenta mudaram a face do Mundo Vital, os anos rebeldes de uma década rebelde, os jovens se rebelando contra os preceitos antigos, abaixo o sutiã, diziam as lindas mocinhas, os moços não queriam cortar os cabelos, moços cabeludos enfrentando seus pais, moças transando com seus namorados, todos desrespeitando as ordens severas, todos fugindo com medo da guerra, guerreando às avessas per um mundo de paz, e as drogas e o vício acabando com os jovens, maconha, cocaína, heroína e LSD; hoje é o crack, matando a pobre juventude, atrizes de novela lutando contra o vício e a morte, perecendo per culpa das próprias ações insensatas, jovens famosos morrendo de Aids, contaminados por usarem agulhas infectadas, jogando em suas veias o vício e a morte; pobre juventude do Final do Milênio!, pobre juventude com medo do Amanhã!, se drogando e fugindo das responsabilidades impostas pelas leis sociais, fugindo, fugindo de um futuro incerto; e vão fugindo da vida sofrida, amedrontados e trôpegos, os filhos dos antigos jovens de sessenta, inseguros e infelizes, com pavor do Futuro, do Futuro Sem-Muro; óh, minha Gente Brasileña! óh, meu Povo Americano do Sul!, sinto o peito excruciado só por relatar tais agruras!, preferia, antes disso, sofrer em minh’alma trabalhos cansativos sem conta; e seus pais, coitadinhos!, os vibrantes jovens rebeldes do Ontem, agora, carecas, sem suas vastas cabeleiras e grossas pulseiras de metal argentado, e suas mães, no passado também jovens rebeldes, se preocupam e temem pelo futuro dos filhos, alguns, esquecidos dos annos de rebeldia, querem por força mudar o destino dos filhos, aconselham e brigam, quomodo qualquer pai do passado, colocando regras nas atitudes dos filhos, infernizando, quomodo qualquer pai do passado, a vida dos filhos, jurando de pés juntos que foram obedientes e souberam respeitar os pais no passado, mas todos infelizes filhos do pós-guerra; os annos dourados da década de cinqüenta foram o período de bonança, depois da tempestade, depois da guerra, um período de paz, mas os alicerces familiares já estavam abalados, depois da Guerra, o Mundo mudou, o Mundo sentiu sua fragilidade, cada Chefe de Nação querendo falar mais alto, todos gritando e mandando para impor respeito, cada qual a seu modo querendo o Poder, e as nações mais fortes dominando as mais fracas, submetendo os fracos com a força do money, e as pobres nações com medo de guerras, preocupadas com o futuro de seus filhos queridos, e as grandes potências oferecendo dinheiro, e as pobres nações aceitando o dinheiro, o tal dinheiro não será pago jamais, os juros cobrados são altos demais, e as pobres nações vão ficar na miséria, e o Brasil do final do novecentto jamais saldará a dívida externa, cobrando do trabalhador, com juros insólitos altíssimos, o dinheiro repassado para a conta do provedor, aquele mesmo provedor do dinheiro emprestado, as prestações devidas nunca terão fim, o saco da dívida é um saco sem fundo, neste Anno de 1999, o pobre brasileiro trabalha sem parar, e no fim das contas o salário é uma miséria total, mal dá pra comprar o leite dos filhos, o sal, e et cœtera e tal, e o governante estrangeiro brasileiro altaneiro exalando superioridade, somos preguiçosos e et cœtera e tal, o aposentado é preguiçoso legal, e o estrangeiro-brasileiro ainda diz que somos vagabundos e et cœtera e tal, o estrangeiro bem vestido tem os bolsos cheios de dinheiro, e viaja pelo mundo aproveitando as férias anuais, e tem amante em alguma casa suntuosa, real, talvez em Portugal, ou na Espanha, ou na América do Norte e et cœtera e tal, e não sabe como é difícil ser brasileiro, o brasileiro vive sem um tostão, aqui, o rico estrangeiro alienado não fala a língua do brasileiro, ele come filé mignon picadinho no salão-refeitório dourado, e o brasileiro vivendo sem um tostão furado, vivendo de brisa minuanóica e ao deusdará, comendo o pão que o diabo amassou, o pão que o diabo amassou com o rabo, mas sempre esperando o dia da caça, se hoje não tem, amanhã deusdará, amanhã deusdará o arroz e o feijão, se não tiver feijão, deusdará o pão, se não tiver o pão, deusdará a ilusão, ilusão de que o pobre terá o que comer no dia seguinte deste Final de Século XX; enquanto isto, a exploração continua, neste anno da graça de noventa e nove, os provedores estrangeiros querem seus dinheiros, mesmo às custas do pobre infeliz, ele trabalha, trabalha, trabalha, e no fim do mês só tem conta pra pagar, é o dinheiro da conta de luz, o dinheiro do gás, o dinheiro da água; se não pagar a água, vai morrer de sede; se não pagar o gás, vai morrer de fome, o fogão não cozinhará a pouca comida para um batalhão do sertão, muita gente para comer a pouca comida do pobre trabalhador, muita gente abonada, o pobre conseguiu comprar um tantinho de comida; no entanto, se não tiver dinheiro pra pagar a luz, vai ter de viver com a luz apagada, na cidade não se usa lamparina, as velas são caras e acabam depressa, o lume é matéria caríssima na Terra do Ão neste noventa e nove sem pão, ninguém na cidade usa carvão, os fogões de lenha não existem mais, usar querosene nem é bom pensar; mesmo assim, o pobre vai levando a sua vidinha ao deusdará, comendo o pão que o diabo amassou, conformado com a miséria e com o sofrimento sem-fim, que seja tudo per amor de Deus em minha vida, óh! Senhor!, seja o que Deus quiser!, se Deus quiser que o pobre padeça, será feita a vontade de Deus nesta Terra Globalizada Rotunda Azulinda; mas Deus não quer isto, não, Ele quer os seus filhos bem amparados, com casa e pão, Ele quer os seus filhos alegres e felizes; o Homem Ricaço se acha dono do mundo e inventa a fórmula secreta de dominar seus irmãos, os mais fortes nadando em ouro e riqueza, com muito dinheiro guardado nos Bancos da Suíça, e o pobre coitado, entresilhado, a chupar o dedo fininho, cada dia mais fino e fraco, nem osso o pobre pode roer, agora até osso se vende nos Grandes Mercados, quando o dinheiro dá, o pobre compra feliz um bello osso pra botar na sopa, uma sopa rala que deusmelivre, uma sopa insossa e sem vitaminas, feita com as sobras da feira, recompensa magra pra quem trabalhou e suou carregando os caixotes pesados de legumes, frutas e et cœtera e tal, e o pagamento é um saco de restos apodrecidos de alimentos fedorentos foetentos infectados,

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

ODISSÉIA MARIA - XXII

NEUZA MACHADO


ODISSÉIA MARIA

NEUZA MACHADO



VIGÉSIMO SEGUNDO CANTO



mas, como eu ia contando, retomo de Avião Supersônico Transcendental o Espaço Aéreo do Ontem Inflamante, voando de Avião de volta para o Passado Distante, encontro no caminho a Carruagem de Apolo Fascinante; encontro também o Velocino de Ouro de Hércules Possante, o Valioso Cordeiro pastando nos Campos da Grécia dos deuses; e vejo do Alto Instigante a Nau de Aquiles, o Beligerante Pelida Filho de Tétis, a deusa divina, amante imortal do mortal Peleu; o Pelida, amigo de Pátroclo; o Forte, vingando seus mortos, vingando a morte de Pátroclo Valente, arrasando com a sua fúria a Cidade dos Ílios, vencendo o Poder de Heitor, o Grande Troiano, vencendo o Filho de Príamo; a Guerra dos Gregos, a Guerra dos Ílios, aquele Combate ficou na Heróica História do Mundo Profundo, graças à grandeza dos versos de Homero, aqueles versos hexâmetros troantes e bellos; no entanto, as Guerras de hoje são mil vezes maiores, as Guerras do Século XX, quero dizer; mas, como eu ia dizendo, viajando de Avião, por esses ares epo-ficcionais belicosos nunca dantes navegados por Epo-Ficcional Foguete Interplanetário de Carreira, viajando para o Infinito de Meus Sonhos Sem-Fim, e se o combustível acabar?, o que será de mim?, no Passado não existiu Posto de Gasolina, não!, quomodo irei abastecer o Avião, se o combustível acabar?, gasolina ou óleo ou qualquer combustível que faça o meu Avião Supersônico voar?, se a gasolina acabar, não poderei voltar, quomo voltar do Passado?, por Zeus!, se a gasolina acabar?; no momento, neste Anno de 1999, continuando a viagem, vejo, lá embaixo as Três Caravelas descobrindo o Brasil, Pedro Álvares Cabral desmatando o Brasil, os Índios da Mágica Floresta perdendo o Brasil, o português quinhentista dominando o Brasil, o pau-brasil saindo do Brasil, as riquezas do Brasil saindo do Brasil, as esmeraldas e diamantes enfeitando a Europa, o ouro, nos Museus do Mundo Rotundo, e o Brasil?, e o Brasil?, coitado do Brasil!, o Brasil se transformando em cinzas no braseiro de pau-brasil!, os braseiros brasileiros perdendo a combustão, neste Anno de 1999, todos apavorados no Reino do Ão, todos divagando no Império do Ão, todos sonhando no País do Ão, todos querendo um Mundo de Abundância no Território do Ão, mas os Inconfidentes Portugueses das Minas Gerais perderam a revolução, foram mortos ou expatriados pra terras distantes, e tudo continuou do mesmo jeito de então, pelos séculos e séculos e muito amém; e a minha Contra-Viagem sempre na contramão, retornando do Passado, o óleo não acabou, não!, graças a Zeus, Júpiter botou combustível no Avião, Zeus e Júpiter, divindades diferentes, óh! Confusão Sem-Razão!; num passe de mágica!, retorno do Malfadado Passado do Brasil Adorado, um raio divino me trouxe de volta num veículo veloz supersônico, de volta para o presente de 1999 sem honras e glórias, não há mais Heróis neste Mundo Atual; a Guerra dos Gregos ficou para trás; o Carro de Apolo, o Velocino de Ouro e o Carneiro Mitológico do Velo de Ouro de Hércules Valente ficaram para trás; agora, só vejo o demente presente embaçado; somente as alegrias verdadeiras valem lembranças; e eu sou sagitariana, muito prazer!, e hoje é dia 20 de janeiro de 1999, Penúltimo Anno do Século XX e Penúltimo Anno do Milênio de Peixes, dia de São Sebastião, nascido em Milão, ou foi em Roma?, meu Romano Irmão?, ou em uma outra cidade qualquer da Itália?, não há certeza, não!; São Sebastião, soldado romano do tempo do Mui Antigo Imperador Deocleciano, soldado cristão, defensor dos cristãos, dos inocentes presos cristãos; soldado-mártir da causa de Cristo, morto a flechadas e pauladas por infiéis pagãos; São Sebastião, Santo Padroeiro do Rio de Janeiro, Cidade Mui Maravilhosa inaugurada num 20 de janeiro, Cidade abençoada por São Sebastião, santo venerado por Dom Sebastião, aquele Rei tão jovem e tão amado pelos portugueses fiéis, aquele Rei imortalizado nos versos heróicos de Camões, desaparecido nas areias escaldantes de Alcacér-Quibir, chefiando a Cruzada mais Santa da História do Mundo, em agosto de 1578, mas, ainda é esperado em sua Pátria Querida; os portugueses esperam o Rei Sebastião, Sebastião, o Conquistador, o Santíssimo Servo do Senhor, Sebastião, o Rei do Amor, do amor por Cristo, quero dizer; e hoje é dia de São Sebastião, a quem invoco e peço proteção, para continuar esta minha viagem, peço também ao divo Mercúrio Veloz das Predições Astrais, por ora, habitando os domínios de Capricórnio, mas no dia vinte e sete de janeiro estará em Aquário Aguadeiro, propiciando-me uma eloqüência transcendental, que segunde o Mártir São Sebastião nesta minha viagem!; Mercúrio em Capricórnio me deixa sensata, censura e rasura minhas palavras aladas, desde oito de janeiro só faço viagens instrutivas, anseio viajar por Terras Inóspitas, uma viagem à Terra Encantada do Vazio Criador Bashôniano, apenas sons, músicas e sensações, convivendo com os deuses do Olimpo de Homero Mitológico e dos Orientais também, confraternizando-me com os deuses do Antigo Egito e com os deuses ingleses habitantes da Floresta dos Bárbaros Celtas, esperando a chegada de outros deuses-convidados, eles virão do Japão, da China, do Industão e et cœtera e tal; nesse sincretismo religioso não faltarão Tupã e a sua Imensurável Corte de deuses afamados da Floresta Amazônica; não faltará a Corte dos deuses africanos, também, Oxalá e Ogum e et cœtera e tal; também as deusas moirenas do Candomblé Baiano namorando faceiras os dourados deuses super-americanos; todos os Extra-Terrestres serão convidados para o Banquete de Deliciosas Ímpares Provisões Abundantes; ao lado da Carruagem de Apolo Cantor, estacionada no centro da Ágora, serão vistos, também, bellos e reluzentes Discos Voadores, os Pequeninos Homens Verdes do Planeta Marte, os Recurvados Homens Marrons do Planeta Saturno, as Formosas Damas Vermelhas do Planeta Vênus e et cœtera, etc e etc e tal, e todos os futuros deuses do Terceiro Milênio saídos das Imortais Páginas Ficcionais do Mago Brasileiro, o nosso singular Haliterses Mastórida, dentre os brasileses inventivos o mais competente, sem dúvida, na arte de conhecer os augúrios esotéricos e ler pelo vôo dos grandiosos aviões intercontinentais e pela borra de café dos habitantes de Fez e pela fumaça do chá indiano o presente e o futuro, o nosso Mago Mega-Milionário do Século XX; todos os futuros deuses do Terceiro Milênio estarão reunidos nessa festa de arromba, saboreando os mais finos manjares do Olimpo Pagão, nectares deliciosos caríssimos e ambrosias divinas, e bebendo as saborosas e alucinógenas sonhadoras bebidas dos deuses da Floresta Amazonense Equatorial-Tropical, o cauím saboroso da Sacerdotisa Iracema passando de copa em copa, de copo em copo, de taça em taça, o licor da Virgem Alencariana na Copa de Zeus, a Virgem da Grandiosa Floresta Aniquilada e Devassada sob a proteção de Netuno dos Mares Antigos, aquele vive no fundo do Mar Dulce do Caudaloso Amazonas, mas tem uma bella casa de veraneio às margens do Rio Negro do Norte do Brasil Varonil; ele às vezes se transfigura em Peixe Espada ou em Dourado Sem Escamas do Igarapé Caudaloso do Encontro das Águas Eternais, o divo Solimões Argentado e o Rio Negro de Águas Profundas e Misteriosas em um para sempre abraço amigável, indescritível; neste Cœnaculu dos deuses mui antigos e modernos, Odisséia Maria das Altas Serras of Hinterland das Minas Gerais dos Atléticos Invencíveis Caçadores de Esmeraldas e de Onças Pintadas e Jaguatiricas Noturnas e Gatos do Mato se esbaldando pra valer, esquecida do mundo real das contas insolúveis e dos problemas vitais, distante das filas imensas dos Bancos do Brasil Varonil, esquecida das contas da luz, do gás, da água, das contas do telefone, do Camping Clube e da NET, muito feliz da vida! convivendo com os deuses garbosos de todas as crenças e etnias, saboreando deliciosos manjares, vivendo e correndo, pensando e sonhando no Olimpo da Terra do Vazio Criador de Linhagem Oriental e Bashôniana, lendo vorazmente todos os Escritores-Artistas do Mundo Profundo, encantada com os versos mágicos dos grandes Poetas do Mundo, olhando de longe o Grande Navio Catarineta Minas Gerais, atravessando obliquamente a Ponte Rio-Niterói das Estranhas Narrativas Reais, recordando saudosa sua terra de origem; Minas já foi e hoje não é mais!; hoje o Rio de Janeiro é minha terra adotada, ou, quem sabe?, a Cidade Maravilhosa me adotou com amor; mas, como eu ia dizendo, 20 de janeiro de 1999, pós o apetite acalmado na Festa de Arromba, com a Lua brilhando no signo de Peixes, com Marte e Saturno se estranhando no céu, numa oposição daquelas de amedrontar, Marte em Libra e Saturno em Áries, temporariamente em Áries, quero dizer, em 01 de março ele retorna pra Touro, me obrigando a trabalhar, trabalhar, trabalhar; mas hoje é feriado no Rio de Janeiro, carioca que se preze adora um feriado, feriado em louvor ao Mártir São Sebastião, mas em São Gonçalo não é feriado não, feriado em São Gonçalo só no dia de São Gonçalo; por isto, não terei feriado não, vou trabalhar em São Gonçalo, senão não terei dinheiro para pagar as contas do mês e para comprar o pão, o arroz e o feijão; mas o contrato acaba no fim do mês, depois, adeus bellas viagens de ônibus velho caquético, atravessando todos os dias a Ponte Rio-Niterói dos Brasileses Intrépidos, olhando com orgulho e paixão o Almirante Guillén Garboso e Lendário, imaginando mil e uma aventuras com um Almirante Gattoso Fermoso, navegando mar afora com o Almirante Deiforme; se houver um tempinho, troco de Nau Argivosa e vou visitar o Millenium Condor das Montanhas Andinas, de vez em quando, pousado no Porto do Rio, à noite, seus sócios companheiros se atracam com as moças do Rio, ou então um passivo e arguto argonauta, tripulante trilendário do navio mitológico Argus Brilhante, possuidor de cem olhos argutos, se atraca com os michês do Rio, às vezes gastando seus dólares americanos com as beldades do Rio, nas boates mal-afamadas do Rio, assistindo striptease nos inferninhos do Rio e et cœtera e tal, minha Mentes Dinâmica calçada com bonitas sandálias voadoiras de oiro e brilhantes passeia no espaço vazio infinito comandando estas estranhas palavras aladas; mas, como eu ia dizendo, consulto o oráculo deste dia pós-moderno, neste 20 de janeiro de 1999, e o orago me diz, você vai Odisséia resolver os problemas aflitivos!, para eu aproveitar os três dias seguintes, para resolver os inenarráveis problemas maiores, e são tantos, meu Deus!, não há oráculo que dê jeito, Senhor!, mesmo que o momento seja oportuno para cuidar do meu ralo dinheirinho, não há jeito não!, é só conta e mais conta para pagar, meu Irmão!, o Correio só traz conta pra eu pagar, Mano Velho!, a ansiedade é tanta e só o que faço é comer, como todas as iguarias da geladeira, como todos os biscoitos guardados na lata, como todo o mel guardado no pote quebrado, como todo o queijo da queijeira mineira, insaciável à noite, vendo televisão, continuo comendo, comendo, e vou engordando, engordando, engordando, assim não conquistarei aquele bilhardeiro deiforme assinalado por Vênus Madrinha, neste 1999, não jogarei do meu Avião Supersônico os reais dólares e euros, para matar a fome dos pobres mortais do Brasil Varonil; mas, como eu ia dizendo, atravessar a Ponte Interinfinita Superlotada de Caminhões Gigantescos e Automóveis Velozes Brilhantes e Ônibus Antiquados Gaiolas dos Pobres é um barato legal, a paisagem do Rio é de uma beleza sem igual, esqueço que há no Rio esgotos mal cuidados, malcheirosos, crateras escuras, esqueço as ruas esburacadas do Rio, esqueço que o carioca joga lixo nas ruas, o carioca joga lixo nos canais foetentos, o carioca joga lixo nas praias foetentas, no Passado tão limpas!, os ricos industriais poluem a Cidade, jogando gás tóxico na atmosfera do Rio, pelas chaminés de suas fábricas de tudo, os motoristas jogam gás carbônico no ar, gás carbônico exalado de seus possantes carros mal cuidados, sujando sem dó os pulmões da população e de seus filhos também, pois seus filhos habitam a Cidade Agonizante Tão Bella e Charmosa também, e vão morrer com certeza com doenças respiratórias, se não houver um basta para tanto descuido; mas, como eu ia dizendo, a Cidade é Bella, é a Cidade Mais Bella do Mundo Atual, meu Senhor!, nem mesmo Paris possui as belezas do Rio Afamado, e é lamentável tanto abandono, meu Deus!, as Favelas invadem os bellos morros do Rio, os barracos mal construídos maculam a maravilhosa paisagem, mesmo assim, a Cidade é bella, talvez no passado tenha sido mais bella, a falta de amor do povo ainda não conseguiu destruir a Cidade, a Cidade ainda reina soberba no Reino do Ão, durante o dia reina a sujeira, o barulho dos carros, os assaltos, os homicídios e et cœtera e tal, à noite, tudo isso e muito mais e et cœtera e tal, à noite, a Cidade se ilumina com a incrível eletricidade moderna, de luzes elétricas, estrelas diversas luminosas, cores vibrantes e muito glamour, e é um espetáculo de rara beleza, meu espantado Leitor!; mas, como eu ia dizendo, com muito Amor, lá vou eu, por estes ares poluídos e bélicos nunca dantes navegados por Epo-Ficcionais Astronautas Atilados, neste 22 de janeiro de 1999, Penúltimo Anno do Milênio de Peixes, segundo dia do Sol em Aquário, com o Sol e Netuno favoráveis em Aquário, a Lua Nova brilhando temporariamente em Áries, tenho tudo a meu favor para conhecer um Ulisses Gattoso Super Especial; esse Alguém deve estar muito longe, talvez explorando a Cordilheira dos Andes, contando lorotas para as moças de lá, viajando pelo Mar do Caribe na Corveta Catarineta Princess Verônica, uma Corveta Nicaragüense dos Mares Suntuosos Fermosos, ou então reinando em outro navio qualquer, de nome sonoro e difícil de pronunciar, quomodo o Star Liberty, o Astro Vagamundo dos Mares do Norte e dos Mares do Sul do Incrível Mundo Rotundo, grande e charmoso!, atracado no Porto, sobressaindo-se garboso entre os demais, e o meu Alguém Especial tão distante de mim, sempre Bienvenido Granda em minha vida e em meu coração; mas, como eu ia dizendo, o Sol em Aquário, neste 22 de janeiro de 1999, uma sexta-feira de muito calor, um calor infernal, sem igual, com a Lua em Áries e Netuno em Aquário, e Vênus também em Aquário, e Urano Estranhíssimo em Aquário também, e Plutão Mui Transformador em meu Sagitário Querido, doze anos pela frente reinando contente, doze anos de transformações radicais, induzindo minha Mentes Dinâmica a vôos originais, exigindo energia vibrante, fazendo de minha vida uma aventura constante, Plutão levando-me numa epo-viagem ficcionalmente alucinante por esses ares insólitos nunca dantes navegados, e o orago do dia prometendo sucesso, não tenha medo de apostar no Futuro, óh! Mulher!, neste 22 de janeiro de 1999, jogue as cartas mais altas do baralho amoroso, aposte nos dados e nas corridas de cavalos, jogue na Sena e no Bolão da Esperança,

sábado, 21 de novembro de 2009

ODISSÉIA MARIA - XXI

NEUZA MACHADO



ODISSÉIA MARIA

NEUZA MACHADO



VIGÉSIMO PRIMEIRO CANTO



mas, como eu ia contando, vou atravessando agora a Baía Praláde Encantada, atravesso a Ponte Rio-Niterói do Sonho Legal, quero dizer, no ônibus Vila Isabel-São Gonçalo, muito animada!, um transporte real et cœtera e tal, em direção ao Templo do Maravilhoso Saber de Cultura Pós-Moderna Geral; vejo ao longe o Pão de Açúcar com um pouquinho de Sal e Manteiga Dourada; vejo o Cristo Redentor Francês-Brasileiro Universal abençoando o Local; meus olhos deparam com a Ilha Fiscal do meu País Equatorial-Tropical, e a minha Imaginação Entrópica Astral explora a Miniatural Ilha Fiscal; a Ilha Pequenina de um Passado Real assistiu ao Último Baile da Monarquia Portuguesa Sem-Sal no Brasil-Colonial do Passado Arbitral, e é um lugar tão lindo, deveras sensacional, meu Leitor do Futuro do Amor, se estas palavras aladas perdurarem, não sei, não sei se elas perdurarão, não sei, a Ilha foi palco de uma triste história, o Último Baile da Corte Portuguesa no Brasil Imperial, antes da Proclamação da República do Brasil Varonil; a Ilha Miniatural com seu Palacete Gótico-Provençal, com aparência de Igreja Gótico-Provençal, a pequena Ilha marcou a despedida do Imperador D. Pedro II e sua Família Real com um dantesco Baile Imperial; e foi um espetáculo incrível, meu Deus!, sem igual, três mil convidados dançando e comendo às custas do povo faminto, tão pobre, de longe, tão perto, o povo miúdo olhando a opulência, e as valsas vienenses marcando o compasso, e as polcas e mazurcas em ritmos dinâmicos, e a sociedade da época se despedindo do luxo demente sob as benções da Nova República emergente; estas coisas só acontecem mesmo no Brasil Varonil, três mil convidados dançando e comendo às custas do dinheiro do povo faminto; mas os estilos de governo mudam, vão mudando, por enquanto, só não muda a exploração ao pobre assalariado, o pobre será sempre explorado, nos Séculos XXI, XXII, XXIII e Seguintes, o pobre sempre foi explorado, mesmo na Corte de Henrique VIII, mesmo na Corte de Alexandre Magno, mesmo na Corte de Elizabeth da Inglaterra, não importa o anno, meu Deus!, não importa o século, meu Deus!, não importa o milênio, meu Deus!, o pobre será sempre explorado, vai comer sempre o pão que o diabo amassou, o pão que o diabo amassou com o rabo, pronunciando sempre as mesmas sentenças, se hoje não tem, amanhã deusdará; do Anno de 1889 ao Anno de 1999 deusdará o que falta ao povo faminto; e as valsas vienenses enchendo o salão, o Grande Salão de Bailes da Ilha Fiscal do Brasil Varonil, de música, risos e mentirosa alegria, o Grande Salão repleto de música, comida, elegância e perfume, e os três mil convidados aproveitando a festança, os Últimos Suspiros da Corte Agonizante, e a República Atilada à espera dos despojos para implantar posteriormente um governo austero; mas cadê austeridade na República do Ão, cadê a austeridade dos políticos do Ão, cadê as promessas do País do Ão, neste 1999, ainda hoje, é só servidão, só se ouve falação, o Governo do Fernando não cuida do pobre, não!, o pobre almeja é um pouco de pão, um salário digno, um salário justo, entrementes, nem isto existe no momento do Reino do Ão, pesquise este meu Presente já Passado, meu Irmão!, a maior parte do povo não tem teto nem pão, mesmo depois da queda dos Braganças, naquela noite de 09 de novembro de 1889, só os ricos entraram e o povo não, só a elite dançou na Ilha Fiscal, o povo se sujeitou a mais uma humilhação, o povo por enquanto não tem vez, não, em 1999, coitado do povo bobão, aqui nunca foi a França, não, aqui não se faz rebelião à moda francesa, aqui não há guilhotina, não senhor, aqui o Imperador foge tranqüilo para Portugal em um navio luxuoso, os vapores luxuosos da época, quero dizer, depois de um grandioso baile de despedida para a nobreza que permanecerá no poder; apesar da tal República Emergente, as Leis nunca mudaram no País do Ão, desde 1500 nada mudou, aqui por enquanto é o Reino do Ão, a elite comerá sempre as finas iguarias, nectares e ambrosias, os manjares dos deuses, e o povo ficará de longe lambendo com os olhos, óh!, meu Povo do Coração!; mas, como eu ia dizendo, em 09 de novembro de 1889, o povo será engabelado com bellos fandangos e com tristes lundus, na Praça defronte à Ilha Fiscal, separada da Ilha por um trecho de mar, mas o povo de agora, do Final do Segundo Milênio, tem o Carnaval do Brasil, se hoje não tem, amanhã deusdará, Deus dará o pão, a alegria e a vontade de viver, Deus dará o dinheiro para o Carnaval, para comprar a fantasia de Carnaval, e o povo faminto espera o Carnaval, e os pivetes do morro roubam para o Carnaval, os pivetes do Rio roubam no Carnaval, e os mais espertos exploram o povo no Reino do Ão; mas, quomodo eu ia dizendo, voltando ao passado, voltando ao Baile Esplendoroso da Ilha Fiscal do Passado, o Baile Esplendoroso da Ilha Fiscal é, hoje, apenas recordação, aquela Cesta de Luzes na escuridão do passado, o divino Machado de Assis soube tão bem retratar, numa única frase, o fantástico baile, na escuridão tranqüila do mar, uma Cesta de Luzes, a Mágica Ilha dos Meus Devaneios Infinitos era no passado uma Cesta de Luzes, as taças de champagne rebrilhando naquela Cesta de Luzes, as nobres figuras brilhando, os vestidos de renda francesa brilhando naquela Cesta de Luzes, os olhos das moçoilas brilhando, as damas e cavalheiros da Corte brilhando, brilhando, as milhares de luzes brilhando, brilhando, brilhando, o poder do Imperador findando, a construção do Palacete Gótico-Provençal brilhando, brilhando, brilhando, o gótico e o provençal brilhando e brilhando e brilhando, até hoje brilhando nas iluminadas noites tropicais de milhares e milhares e milhares de lâmpadas elétricas atuais, o Rio de Janeiro situado no Trópico de Capricórnio, a Baía de Guanabara tão tropical, a pobreza brasileira tão tropical, tropicando sempre sem cair no chão, digo, tropeçando sempre, mas, sem cair no chão, e a gótica construção embelezando a paisagem, e as vistosas vestimentas embelezando o passado, e a Ilha Fiscal faiscando, uma imensa Coroa de Luzes no Mar de Escolhos do Brasil Varonil, e o jornalista Coelho Neto descrevendo o Baile, a Flora Tão Bella do Machado de Assis abrilhantando o Salão, dividida entre os irmãos Esaú e Jacó, disputada pelos irmãos Pedro e Paulo, Pedro Esaú e Paulo Jacó, ou será Jacó Pedro e Esaú Paulo?, os nomes se confundem em minha veirota memória, o Machado de Assis vai me perdoar por ser tão esquecida, a Flora Dionóra Machado das Contendas Antigas, do clã valeroso dos Machados Mineiros do Calderão Tampado, nora do Grande Bolívar, filho do Memorável Theofilo, nora de Marieta Pereira, do Intrépido José Imortal descendente, da Polis da Imperatriz Leopoldina, os Machados Galhardos oriundos de Portugal, e hoje não sabem, no passado pertenceram aos novos cristãos radicados em Portugal, cristãos novos por imposição, cristãos novos pela Inquisição, a Inquisição que marcou a Igreja Ocidental, triste mácula no Ontem da Igreja de Cristo Nosso Senhor, Ele só queria o bem da humanidade pecadora, e os cristãos do passado perseguindo os judeus, queimando os judeus nas fogueiras inquisitoriais, triste acontecimento de uma Era tenebricosa; os cristãos de hoje abominam a Inquisição, no entanto, ela ainda existe, meu Deus!, disfarçada em preconceito geral; cada qual com suas crenças, vamos respeitar os judeus, e os judeus sempre perseguidos através dos séculos sem-fim, Hitler perseguindo os judeus da Alemanha, triste acontecimento do Século XX, triste ocorrência do Século Final do Segundo Milênio, triste espetáculo da Segunda Guerra, e os inocentes judeus sempre perseguidos, e os valentes judeus sobrevivendo no mundo, os unidos judeus resistindo no mundo, por certo!, os judeus mandando no mundo, a união faz a força e os judeus são unidos, são unidos e ricos, têm muito dinheiro para comprar o Mundo Rotundo, se eles quiserem comprar o Mundo no Próximo Século XXI, e os judeus, graças a Deus!, vivendo no mundo, e as matriarcas judias criando seus filhos, respeitando as Leis do Antigo Testamento, respeitando os dias santos judaicos, e os Machados e os Coelhos e os Baratas e et cœtera e tal distanciados das leis judaicas pela imposição do tempo vital, os Pereiras, os Cerejeiras e os Nogueiras desconhecendo o passado judeu, o sangue do povo assinalado corre em suas veias, Irmãos, desconhecem suas raízes existenciais, meus Irmãos, todos descendentes de Abraão e dos Novos Cristãos, eles abjuraram suas crenças com medo da morte na Fogueira Infernal, e a vida correndo, meu Deus!, e os homens matando em seu nome, meu Deus!, e os homens brigando em seu nome, meu Deus!, as Guerras Santas, meu Deus!, não concebo a existência de Guerras Santas, my God!, neste Final de Segundo Milênio, a Irlanda do Norte Europeu guerreando em seu nome, meu Deus!, católicos e protestantes guerreando, meu Deus!, Irmãos-Cristãos lutando entre si em seu nome, meu Deus!, os homens criando as atuais leis religiosas do mundo em seu Nome, todos interpretando os ensinamentos de seu Filho à revelia, meu Deus!, os hodiernos exegetas do Novo Testamento interpretando de qualquer maneira os ensinamentos de Jesus, deturpando as santas palavras de Jesus, Aquele deu sua vida para salvar a humanidade pecadora, mesmo assim, os homens continuam matando, continuam mentindo, o Século XX foi o século das guerras, a Primeira Guerra Mundial durou três anos de sangue e lágrimas, sangue de infelizes soldados, morriam ou matavam submetidos aos seus governantes, lágrimas de dor e desespero dos pais, das famílias, sofrendo por seus filhos-soldados tão distantes de casa, morrendo ou matando, matando outros inocentes de outras nações, triste matança, meu Deus!, milhões de hecatombes dos gregos antigos, cem bois já não satisfazem os deuses do progresso do Século XX, agora os homens são sacrificados aos milhões em nome dos deuses poderosos do tal progresso, depois, a Segunda Guerra Mundial de 1940 a 1945, cinco anos de bombardeios aéreos e muito terror, a guerrinha histórica, entre gregos e troianos, foi uma pequena contenda entre as cidadelas antigas, durou dez anos, mas não matou tanta gente, Homero Gigante foi brilhante ao narrar a Guerra Troante de versos sonantes destruidora dos infelizes troianos, seus versos hexâmetros deram vida e grandeza à contenda, os versos hexâmetros glorificaram o ocorrido, mas as guerras reais do Século XX foram muito mais cruéis, mil vezes mais destruidoras, pequenas bombas mortíferas destruindo cidades, pequeninos botões arrasando países, não há modelos de versos épicos que traduzam nosso medo, Senhor!, as bombas são jogadas do alto, dos aviões militares, os soldados de hoje possuem armas poderosas para a destruição da humanidade, os aviões transportam bombas mortíferas neste Final de Século XX, as bombas caem do céu e os inocentes morrem na Terra, Hiroshima e Nagasaki destruídas em segundos, mais de 300 mil mortos num instante, meu Pai!, o Japão destruído economicamente em segundos, bombas poderosas destruindo o mundo; cuidado, Mundo!, com as bombas do Mundo; e a Segunda Guerra quase destruindo o mundo, e os anos seguintes em pé de guerra, ninguém deseja fumar o Cachimbo da Paz para não perder o poder, pequenos focos de guerra em cada canto do mundo; e a Centúria 10 de Nostradamus prevendo o final, 1999 será o anno aziago; a Centúria 10 da quadra 72 dizendo, do Céu virá o Grande Rei do Terror, Marte Audaz Aviador Destemido destruindo o Mundo; dos aviões riscando os céus descerão as bombas fatais, o Grande Rei do Propalado Terror é um semideus muito louco, louco por mulheres mortais, quero dizer, no entanto, eu sei!, uma mulher sem-igual destruirá o Grande Rei do Terror, o Grande Rei do Terror não sabe o que o espera, uma mulher de 1999 vai destruir a profecia, a profecia de Nostradamus, quero dizer, Você viverá, sim Senhor, a Mulher de hoje quer um mundo de paz, meu Amado Rapaz!, o Rei do Terror vai se render a uma Mulher, sim senhor, ela vai segurar a boca do leão, fará o leão se ajoelhar a seus pés, fará o dito leão se curvar, sim senhor, fará do leão um cordeirinho sem valor, e o Grande Rei do Terror se transformará no Rei do Amor; Nostradamus do Século XVI se enganou, meu Leitor!, ele não viu direito o Futuro Sem-Muro,

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

ODISSÉIA MARIA - XX

NEUZA MACHADO



ODISSÉIA MARIA

NEUZA MACHADO



VIGÉSIMO CANTO



mas, como eu ia contando, retomando esta narrativa praláde enrolada, o Grimaldi Lines está, agora, enfeitando o Porto do Rio de Janeiro, neste 12 de janeiro de 1999, às 15h35min, horário de Verão no Brasil, na maior parte do Brasil Varonil, quero dizer, não há horário de Verão em Manaus, por exemplo, o Brasil, por ora, por enquanto, no momento, ainda é um imenso país; mas, como eu ia dizendo, o Grimaldi Lines está agora enfeitando o Porto do Rio; eu, Odisséia Egipcíaca da Média Inventiva, a anti-heroina astuciosa e andarilha em caleidoscópia peregrinação, estou atravessando mais uma vez a Ponte Rio-Niterói dos Sonhos Infinitos, no ônibus RJ-117.142, da linha Passeio-São Gonçalo, novamente em direção àquele Templo do Saber da Globalizada Cultura Pós-Moderna; e que tarde bonita, my God!; neste governo transitório do Fernando Henrique Cardoso, neste início de 1999, é muito mais vantajoso atualmente exclamar “meu Deus!” em inglês; lembre-se sempre de minhas palavras aladas, my Love!, o brasileiro de hoje não sabe valorizar o seu bello idioma, seu bello idioma herdado dos portugueses, quero dizer, com todas as nossas características idiomáticas, quero dizer; agora, novamente, em direção àquele Templo do Glorioso Saber Brasileño, o sol hiperniteroiônio ilumina todo o cenário, Apolo Luminoso das Artes e Adivinhações reina hoje no Rio de Janeiro, as barcas niteroienses atravessam a baía ensolarada, quais Brilhantes Naus dos Argivos Oriundos de Argos, vão a direção do infinito de meus Sonhos Mais Bellos, Júpiter Amante Fogoso e Dinâmico, na figura de um atlético mortal, corre atrás de Vênus Bella Fluminense, abandonou por ora a Montanha Sagrada dos Romanos Antigos, abandonou por ora as deusas de lá, e brinca feliz com as mortais de Niterói Luminosa, Júpiter e Apolo, irmanados, se banham nas águas tão tépidas do mar do Atlântico na América do Sul, Júpiter e Apolo, irmanados, disputam as bellas mortais da Cidade Imortal, as deusas do Olimpo de Copacabana vão morrer de inveja, os deuses do carioca Olimpo Praiano preferem as mortais de Niterói Fermosa da Aurora de Dedos de Rosa, a praia de Icaraí per o Mar Infinito banhada é o reduto dos deuses fluminenses, Apolo se disfarça em um másculo rapaz, Júpiter preferiu transformar-se em charmoso quarentão, agora, vejo Saturno se aproximando de mim, reconheço-o na pele de um bello sessentão, vejo tudo através de meus sonhos mais temerários; sou uma sertaneja daqui a pouco praláde cinqüentona do Século XX disfarçada de professora de literatura geral, na verdade, sou uma intelectual caipiríssima mineira, encantada!, nasci nas Montanhas Longínquas de Minas Gerais; enquanto isso, a minha Mentis Interiorizada voa até Manaus dos Caboclos Deiformes, vou na Bella e Dourada Carruagem do Sol Apolíneo até Manaus, para rever os amigos e et cœtera e tal; no entanto, não posso por ora abandonar o Grimaldi Lines, Navio Poderoso e Brilhante, tão lindo e tão branco!, enfeitando agora o Porto da Famigerada Baia Famosa; penso em levar o Grimaldi Lines para Manaus, vou levar o Grimaldi Lines para Manaus, sim senhor!, per estes ares epo-ficcionais poluídos nunca dantes navegados por nenhum Solerte Foguete Interplanetário de Carreira; mas não posso abandonar, também, o beligerante Princess Verônica da Nicarágua Cansado de Guerras, navio tão másculo com nome de mulher; não posso abandonar os navios do mundo atracados no Porto, com seus marinheiros se atracando com as mulheres da Cidade do Rio, com as mulheres prostitutas do Cais do Porto Inseguro, sedutoras; rapazes marinheiros estrangeiros fazendo filhos mestiços com as raparigas do Rio; rapariga é o feminino de rapaz, meu Rapaz!; o Milênio de Peixes já está terminando, falta um anno e meio para o milênio acabar e as profecias apócrifas não se realizaram, as profecias apócrifas não se realizarão, meu Irmão!, o mundo não vai acabar!, Você, com certeza, lerá estas minhas palavras aladas, o mundo não acabará no Anno 2000, não Senhor!!; enquanto isto, os rapazes dos navios do Mundo, aqueles navios vistosos que aportam no Rio, vão fazendo filhos mestiços com as raparigas de acá, são másculos, bonitos e reprodutores, as moçoilas sensuais não resistem a tanta macheza; nos navios, solitários!, inexiste o amor, e os solitários marinheiros sonham com as mulheres do mundo; alguns diferentes sonham com os pivetes do Rio; outros poucos ou muitos com os michês do Rio, rapazes vendendo seus corpos no Rio, para o turista brasileiro e estrangeiro no Rio, e ganham muitos dólares no Rio; e a indústria do sexo prospera no Rio, a indústria do sexo prospera no Mundo, a indústria do sexo domina o Mundo, as redes de televisão e a Internet do Mundo; e hoje as mulheres se despem tranqüilas no Mundo, as moças de família andam nuas nas praias, e os pais pós-modernos se orgulham de suas filhas peladas, e vendem a nudez de suas filhas para a Revista Playboy Americana, e ganham muitos dólares americanos, e compram apartamentos em Copacabana, e compram os automóveis mais caros do mundo com o dinheiro suado de suas filhas peladas; elas passam horas peladas posando para os fotógrafos, as dignas moças posam peladas para os fotógrafos do mundo, dignas moças, se casam na Igreja Católica e na Igreja Evangélica também vestidas de branco e de véu e grinalda, mas, há muito!, transam com os moços do Rio, ou de São Paulo, ou de outra cidade qualquer do Brasil Varonil, as dignas moças do Século XX; mas olhe só quem está atirando pedras nas dignas moças, uma insana pra lá de assanhada, aquela do tal amor milionário gatoso, para depois gastar o dinheiro em viagens homéricas, as moçoilas do Rio irão permitir?, elas querem também os velhos milionários, as velhas do Rio disputam pra valer, fazem plásticas, ginásticas, regimes e et cœtera e tal, algumas velhas ousadas se despem também e saem peladas na Revista Playboy, mas estas são velhas atrizes de grandes inventivas, ou anosas cantoras dos anos 50/60, estão acostumadas com o palco, meu Bem!; mas os velhos preferem as mocinhas fresquinhas, de vez em quando um velho qualquer se encanta per uma velha dinâmica, mas a velha tem de ser um mulheraço, cheia de charme e tesuda pra valer, se não, baubau!, agora está tudo mudado na República do Ão, os mocinhos imberbes estão de olho nas velhas, querem o “colo da avó”, outras coisas também, e o dinheiro também; mas, olhe só quem está falando, falando mal das dignas moçoilas, as moçoilas do Século XX Final,

terça-feira, 17 de novembro de 2009

ODISSÉIA MARIA - XIX

NEUZA MACHADO



ODISSÉIA MARIA

NEUZA MACHADO



DÉCIMO NONO CANTO


mas, como eu ia contando, meu Anjo-Guru me levando pra sua terra maravilhosa, me apresentando a seu povo-caboclo, me levando pra tomar tacacá na Praça Central de Manaus, perto da Zona Franca dos Mercadores de Todas as Partes do Mundo, em frente ao Quartel Militar, pela Avenida Getúlio Vargas de Passarelas Tão Largas, em frente ao Instituto de Educação dos Jovens Manauaras, muita movimentação na Avenida Sete de Setembro esquina com a Getúlio Vargas, andando pela Zona Franca de Manaus, comprando incenso, mirra, óleos perfumados, aparelhos elétricos, roupas finas e mil bugigangas, gastando dinheiro a rodo na Zona Franca de Manaus, almoçando na Confeitaria Alemã, tomando chá e comendo finas iguarias no salão do Hotel Imperial, chá quente à moda inglesa, às 17h00, no salão refrigerado, lá fora 45 graus de calor; meu Leitor!, hábitos europeus no meio da Floresta; herança da época da borracha, Amor!, a borracha que encheu de dinheiro suado os bolsos fechados dos Seringalistas, assim contou-me o Bello Guia-Caboclo Mais Bonito do Mundo; eles extraíam a borracha dos troncos da Seringa, explorando o trabalho escravo dos nordestinos franzinos, esses saíam de seus Estados natais, em busca de comida e dinheiro, e trabalhavam quomodo escravos nos Inóspitos Seringais, comendo o pão que o diabo amassou, esperando um dia voltar ao Nordeste, se hoje não tem, amanhã deusdará, misturando seus sangues com as Índias Faceiras, morrendo com as febres tropicais, febre amarela, malária, tifo e et cœtera e tal, só tendo peixe, farinha de macaxeira e frutas no cardápio, às vezes, um pedaço de cobra, um macaquinho ou outro, um pedaço de jacaré, mas comer macaco é antropofagia, meu Deus!, e os perigos da floresta!, e a solidão da floresta!, e a saudade de casa!, e a maiínha tão longe!, rezando per seu pobre filhinho, perdido na Imensa Floresta!, será que a maiínha ainda está viva?, e os meus barrigudinhos irmãos, estarão ainda vivos?, será que a fome do Nordeste já foi dizimada?; e Odisséia Maria da Estrela Guia, aqui, tomando tacacá na barraca da cozinheira-cabocla, na Praça Central, um caldo quentinho, sem-igual, passeando talequal rica nos corredores do Hotel Tropical, tirando fotos históricas, passeando com o Anjo-Guru Amazonense Rochel e a Míriam Ramos pelos corredores luxuosos do Hotel Tropical, o maior da América do Sul Maioral, o mais caro, o mais exótico, com o seu imenso zoológico, aquele hotel que hospedou o Carreras, cantor lírico do Mundo Rotundo, quando ele foi cantar em Manaus, em fevereiro de 1996, recebendo um cachê praláde astronômico, por ocasião da reinauguração do Theatro local, o pobrezinho estava abandonado e foi restaurado com o sacrifício do Povo Dourado, aquele povo sofrido não deixa de pagar seus impostos, e o povo não pode entrar no Theatro, não senhor!, o preço da entrada era também astronômico, muito caro, quero dizer; mas, como eu ia dizendo, com a Vênus em Capricórnio, ela havia entrado em Capricórnio no dia 28 de novembro de 1995, numa terça-feira marciana, dia do soldado, se aliando a Plutão para mexer com a minha vida e o meu coração; andava tão pacata no Rio de Janeiro, de repente, zás!, minha Vênus me empurrando para Manaus!; lá você será amiga do Cacique da Floresta Encantada, terá o Dourado Caboclo que quiser, na rede entrançada de folhas de palmeira platinada que você mesma escolherá, lá você reinará!, agarre a chance de se expandir profissionalmente, mas cuidado com as atitudes radicais, com as atitudes extremas; cuidado com as mudanças repentinas, Odisséia!, com a Lua Crescente você se aproximará de suas metas inatingíveis, dedique-se mais para atingi-las, óh! Mulher!, fique alerta às oportunidades que surgirão, e et cœtera, etc, etc e tal, você, minha Cara!, precisa aproveitar as chances financeiras que estão por aí, os astros prometem sucesso!; dia 13 de Dezembro de 1995 Mercúrio em Capricórnio, Mercúrio na Casa da Fortuna abre mil portas d’ouro para uma Sagitariana Sem Medo, os Imponentes Portais da Incomensurável Floresta Amazônica, novas situações inesperadas per sua frente, novas e grandiosas conquistas nas Listas, saia por aí conquistando Terras Desconhecidas, um grande impulso será enviado a você, é hora de usar e abusar do seu poder de atração, saía pelo mundo depois dos quarenta!, vá fazer a América Homérica depois dos quarenta, Mulher!, a América do Sul, quero dizer!, a Amazônia, quero dizer!; no dia 24 de Dezembro de 1995 almoce e jante com a família, no dia 25 almoce com a família também, coma churrasco com os familiares, faça libações ao Deus Eternal, seu Natal de Jesus será sem-igual!, comemore o Natal; à tarde, volte para o Casulo de Seda da Floresta de Pedras da Tijuca Barulhenta, ligue a secretária eletrônica para ouvir os recados, votos de Boas Festas dos Amigos e tais; zás!, um convite para trabalhar em Manaus, o meu Anjo me chamando pra Manaus; venha, professora!, lecionar em Manaus!, jogue tudo para o alto e venha pra Manaus!, venha ministrar filosofia bachelardiana para os caboclos de acá, venha teorizar em Manaus, venha literatizar em Manaus, venha para Manaus, venha pra cá, pra comer jaraqui, quem come jaraqui, não sai mais daqui; venha pra cá, pra comer pacu, quem come pacu, se apaixona por Manaus; venha pra cá, pra comer tambaqui, quem come tambaqui, não sairá daqui, não coma dourado, é peixe danado, quero dizer, é peixe remoso, peixe sem escamas é muito perigoso; quero dizer!, é perigoso para a saúde, assim eles dizem lá em Manaus, peixe lisinho sem escamas dá doença de pele, em 1996, imensa legião de leprosos nas ruas de Manaus, não se esqueça dos leprosos das ruas de Manaus, cuidado com as doenças venéreas em Manaus, os contaminados turistas infectando as caboclinhas, e a culpa recai no lisinho peixe sem escamas; que peixe lisinho encrencado!; caboclo que se preze não come peixe sem escamas, assim me contou o meu Guia-Caboclo; grande sorte têm os peixes sem escamas, lisinhos, brilhantes, roliços, não vão parar nos aiós dos pescadores; cuidado com a aids, a doença do Século XX, dizimando a humanidade na Era do Progresso, exatamente igual às pragas do passado, a aids matando os homossexuais do Mundo, a aids matando os maridos-galinhas, matando as esposas inocentes, elas abrem as pernas para os maridos infectados, a aids matando crianças indefesas, filhas de pecadores aidéticos que transam sem camisinha; o sexo hoje é o mal da humanidade, homem com homem e mulher com mulher, a outra metade da laranja do tempo de Platão; há poucos héteros no Mundo Atual; mas, eu sou hétera com muito prazer!, adoro demais da cooonta o sexo oposto!; a sífilis e a aids exterminando a humanidade; o sexo agora é veículo de doenças; o Amor agora mata, bom Deus!, neste final de Século XX, cadê a vacina contra a aids, meu Deus!, os cientistas não conseguem encontrar o antivírus da aids!, mas conseguiram a fórmula da eterna virilidade, os cientistas criaram a pílula do homem, os velhos agora já podem transar, transar com as mocinhas, bem entendido?!, suas velhas vão ficar em casa chupando o dedo, enquanto as mocinhas chupam outras coisas e et cœtera e tal, chupam o dinheiro do velho e et cœtera e tal, vale a pena pagar pra coisa funcionar, a brocheza acabou na Terra do Ão, a aids continua na Terra do Ão, os cientistas recebendo prêmios, a Suécia premiando os cientistas do Viagra, o Prêmio Nobel para os cientistas do Viagra, a descoberta do Viagra para o bem da humanidade, o poderoso Viagra que faz o mole ficar duro; o Amor, posto que é chama, seja eterno enquanto duro,

domingo, 15 de novembro de 2009

ODISSÉIA MARIA - XVIII

NEUZA MACHADO



ODISSÉIA MARIA

NEUZA MACHADO


DÉCIMO OITAVO CANTO


mas, como eu ia contando, eu vou voltar pra Manaus, meu Leitor; eu trabalhei em Manaus, meu Amor!, sou Brasileira Altaneira, com orgulho e prazer, e tudo em minha terra é para se admirar; aqui não é a Floresta Barbizon, não senhor!; não é Fontenebleau, não senhor!, não é a França, não senhor!; as floresta de lá são muito civilizadas!; as florestas do mundo europeu são mais civilizadas; quero dizer, a minha Floresta Amazonense é muito mais Encantada!; é mítica, é endeusada, eu vivi dias muito felizes em Manaus; sim senhor!, comi matrinchã assado na brasa, comi costelas de tambaqui com muito coentro e sabor nos Restaurantes de Manaus, comi escabeche de peixe à moda cabocla, com muita pimenta murupi e pimenta de cheiro e um pouco de sal, com cebola, pimentão, coentro, salsinha, tomate e azeite doce, aquele caldo fervente de peixe e amor, com muita farinha de mandioca; mais tem de ser a farinha cabocla, grossa e saborosa!, só os descendentes dos índios sabem fabricá-la, sim senhor!; almoço de sábado, preparado pelo meu deiforme Guia-Caboclo, o Guia-Caboclo Mais Bonito do Mundo Profundo!; mas, eu vivi em Manaus, sim senhor!, e convivi com a Floresta Indevassável, andei de canoa nos igarapés mais longínquos, atravessei de Voadeira Veloz Argentada Brilhante o Rio Negro de Águas Profundas Veladas Bacantes até a Praia do Amor, sim senhor!, conheci as Aldeotas dos Pescadores Mestiços de Pele Vermelha, fiz libações com a fumaça dos peixes assados na brasa, nas praias, em honra dos deuses da Floresta Tropical; o cheiro do tucunaré de coloração prateada acalmou a fúria de Tupã, o implacável deus dos silvícolas; vi as bellas estrelas do céu, deitada em uma rede de fibra de tucunzeiro, ao lado do meu guia-caboclo, mais bonito é impossível!; comi tucumã de fruto oleoso e saboroso, comi e me regalei com o creme de açaí, o açaí vermelhinho de tanto sabor, comi doce de cupuaçu, um doce amarelinho, mais saboroso do que o ambrosia dos deuses de Homero, e tantos outros frutos tropicais, não dá pra falar, são tantos, são tantos, não posso enumerá-los; eu vivi no Amazonas, Rapaz!, sim senhor!, morei em Manaus, na Avenida Sete de Setembro, bem pertinho do Antigo Palácio do Doutor Governador, próxima à Escola Técnica dos estudantes caboclos, em direção aos Educandos, Bairro dos Educandos, quero dizer; assisti às missas dominicais na Igreja Nossa Senhora dos Remédios dos Índios Mestiços; estava em Manaus no dia do Inesquecível Concerto do José Carreras, em fevereiro de 1996, no magnífico Theatro Amazonas do Princípio do Século; comprei os meus peixes milenares no Mercado Municipal, aquele estranho Mercado da beira do rio, com aquela arquitetura art-noveau lembrando Paris, arquitetura representante da época gloriosa da borracha, quando os seringalistas do Norte nadavam em dinheiro; mas, como eu ia dizendo, passeei aos domingos pelas ruas de Manaus, andava sem destino pela Joaquim Nabuco, ou então meu destino era a Avenida Getúlio Vargas, quando não trabalhava, quase enlouquecia; na verdade, na verdade, não fui verdadeiramente feliz em Manaus, sofri saudades do Rio de Janeiro do Sudeste do Brasil Varonil, quase morri de tristeza, sentindo saudade dos filhos amados; mesmo assim, passeei em Manaus, fiz compras insólitas na Zona Franca, vi o José Carreras repito de Voz de Barítono cantar e encantar as ninfas de lá no Grande Teatro Amazonense, repito, construído com o dinheiro da borracha, aquele precioso edifício do início deste meu Século XX, imponente construção sem nenhuma serventia, perdido na Cidade Equatorial da Floresta Monumental, grandioso prédio numa cidade de poucos ricos e muitos pobres caboclos só possuidores das riquezas sem dono da Imensa Floresta Sem-Igual, e morrem de doenças ditas tropicais; mas não passam fome, não senhor!, há muitos peixes no rio, há muitas frutas na densa floresta, muitas raízes de mandioca do mato serão transformadas em farinha saborosa, há muitas tartarugas nos rios eternais fornecendo carne para as sopas e outros pratos da região; há ainda os animais da floresta, um animalzinho ou outro para matar a fome e não fará falta a ninguém, não senhor!, pois a floresta ainda não tem dono, graças a Deus!, ainda há algo no mundo quase sem dono, graças a Deus!; mesmo que o estrangeiro tente se apropriar da floresta, a Floresta Amazonense pertence ao Brasil, yes Sir, uma parte da grande Floresta Tropical-Equatorial da América do Sul pertence ao Brasil Varonil; a Bolívia é dona apenas de um pequeno pedaço; mas, como eu ia dizendo, os caboclos de Manaus não passam fome, não senhor!, e não passam frio também, não senhor!, lá ninguém sente frio, o frio não existe por lá, não senhor!, é só calor de matar o anno inteiro, 46 graus de calor!, nem as chuvas diárias espantam o calor, calor terrível, meu Deus!, mais quente que o Inferno de Dante!, inclemente!, calor tão forte!, óh! My God dos Americanos do Sul e do Norte!, são oito banhos por dia; eu tomava oito banhos por dia, meu Mano!, sem contar os banhos da noite, e as carapanãs-muriçocas, Maninha!, uma nuvem de carapanãs-antropófagas querendo chupar o meu precioso sangue diferente do Sudeste do Brasil Varonil, elas perceberam o meu sangue diferente, o sangue dos caboclos já possui repelente, as carapanãs não sugam o sangue dos caboclos, não!; carapanã, para quem não sabe, é o pernilongo amazonense, pior do que os pernilongos do Sul do Brasil, aqueles terríveis bichinhos cantadores nos ouvidos dos mortais a noite toda, perturbando o sono, zunindo, zunindo, enfiando seus pequeninos ferrões afiados nos pobres mortais, sugando o sangue dos mortais; mesmo assim, eu penso, fui muito feliz em Manaus, sim senhor!, um anno de felicidade sem-fim em Manaus, levada pelo impulso de minha índole aventureira; ou, quem sabe?, pelo poder dos astros absolutos, eles estavam em evidência naquele momento, quase todos em Capricórnio, naqueles memoráveis dias de 1996, com Plutão invadindo Sagitário, meu signo de sorte, e me obrigando a sair viajando, viajando; essas viagens serão relatadas aqui, com certeza, se eu não perder este fio de Ariadne Andarilha Em Busca da Sorte; Plutão ficará muitos anos em Sagitário, obrigando-me a sair do Casulo de Seda da Tijuca Aconchegante, obrigando-me a sair do casulo da paz, a driblar o trabalho loquaz pra sair viajando; ele me levará à Europa no Anno 2000, o Plutão, e me brindará com o reveillon de Páris Alexandre oriundo da Grécia, de 2000 para 2001, por que não?; distribuirei gorjetas em euro para os pobres de lá, a Nova Moeda do Mundo Desgovernado e Profundo; eu estarei super rica, depois de ter encantado o Homem Mais Viril do Brasil Varonil; mas, como eu ia dizendo, quase todos os planetas em Capricórnio; Netuno, Urano, Marte, Mercúrio, e o Sol também em Capricórnio, meu Anjo-Guru também de Capricórnio, do dia 02 de janeiro de 1943; o meu Anjo-Guru Amazonense Rochel, filho de mãe Stella Brasileira e pai Judeu-Francês Samuel, me levando pra sua terra maravilhosa, me apresentando a seu povo dourado, encantado,

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

ODISSÉIA MARIA - XVII

NEUZA MACHADO




ODISSÉIA MARIA

NEUZA MACHADO



DÉCIMO SÉTIMO CANTO



mas, quomodo ia contando, em janeiro do Anno de 1996, depois de uma loooooooonga viagem de avião, voando pelos Céus do Brasil numa confortável poltrona da Primeira Classe, lanchando e almoçando no avião, sendo servida por aeromoços solícitos; eles morrem de medo de avião, medo do avião despencar do Céu do Brasil Maioral e cair na Matta Tropical-Equatorial, se isto acontecer, por Tupã!, não haverá salvação!, todos os passageiros morrerão!; as anacondas engolirão os sobreviventes, se por acaso houver sobreviventes, se o avião cair na Floresta Maioral; as piranhas comerão os cadáveres, se o avião cair no Rio Negro ou então no Solimões ou então no Rio da Morte; os índios antropófagos comerão os cadáveres, se o avião cair numa Taba indígena antropófaga; a Taba é a aldeia dos índios, sejam eles antropófagos ou não; é a Polis dos índios, et cœtera e etc e tal; preste atenção a estas palavras aladas!, Vossa Mercê do Futuro Sem-Muro, talvez, ouvireis falar da existência de índios no passado distante do Brasil Varonil, os índios de hoje já estão em extinção; a cultura do índio foi prascucuias, já está quase esquecida; neste 10 de janeiro de 1999, Mercúrio Brilhante Falante e Certeiro Guia Vigia está em Capricórnio, por isto, estou relembrando janeiro do Anno de 1996 quando fui para Manaus Capital do Amazonas; Capricórnio é um signo muito sério e sabe trabalhar para o Futuro-Sem-Muro e sabe, quomo ninguém, dramatizar o Passado Enrolado; por isto este trecho da viagem pertence ao passado; Mercúrio está brilhando em Capricórnio, nesse janeiro de 1996, nesse passado recente que aconteceu anteontem; e o avião chegou em paz no Aeroporto Eduardo Gomes, um herói brasileiro das Forças Aéreas, amanhã irei conhecer a Cidade de Manaus, a Imensa Cidade no Meio da Floresta Descomunal Tropical-Equatorial, a Longínqua Cidade Perdida na Floresta dos Vermelhos Índios Encantados Dourados; depois, em Canoa de Proa, à toa, ao acaso, irei pescar no Igarapé Mais Fermoso e Grandioso do Mundo Rotundo e Profundo, vou pescar um Grande Jaú Amazonense Circense; mas, primeiro, preciso contratar um Guia-Caboclo de Olhar Amoroso Fermoso, ele me guiará pelo rio até encontrar o Jaú Grandioso, quero pescar o maior Tambaqui Varonil existente acá; vou apreciar o Amanhecer na Grande Floresta Sem-Igual, pescar Luzentes Peixões Amazonenses, acampar no meio do Matto, tendo ao meu lado Amoroso Deiforme o meu Guia-Caboclo, o Guia-Caboclo Mais Bonito do Mundo, a um deus dos silvícolas semelhante, solto, forte e indomável, atuante, para me proteger dos perigos da noite intrigante; depois, de manhã, pescar uma Pirapitinga Milenária, uma espécie de Pacu Gigante, aquele tem olfato e come frutos silvestres; os frutos da Floresta Tropical do Brasil Varonil caem no rio e os peixes pulam fora d’água para abocanhar os tais frutos, os peixes pulam buscando comida; o rio é uma imensa cobra perigosa, silencioso, sinuoso, misterioso e lendário; o rio é cheio de cachoeiras e armadilhas terríveis, onde muitos desavisados cabocleses pereceram; é preciso viajar com cuidado, acampar com cuidado, os Incomuns Bichos da Floresta Brasileira estão soltos por lá e são ferozes demais, o rio é imenso e silencioso, os Peixes Milenares são Gigantes da Água, os Bichos Milenares enfeitam a Floresta, as Árvores Milenares vão ser derrubadas, depois, o que será da humanidade, meu Deus!, não teremos as árvores, as árvores purificam a atmosfera maltratada; por enquanto, quomodo Dite Criteriosa, por ora, viajo de Canoa Argentada pelo Rio Misterioso com meu Deiforme Mestiço Caronte Charmoso, almoço peixe com farinha de macaxeira à moda do Norte, e vou de canoa atrás dos peixões, e os peixes vão atrás de mim, pacu e matrinchã, pegando o pão em minha mão, os peixes inocentes pulando felizes na água brilhante, saltando fora d’água em busca do pão, sem medo do homem destruidor insensível; os pacus botando suas caras de peixe para fora da água, com as bocas abertas pedindo comida; os matrinchãs bailarinos comendo meu pão, e os peixes gulosos do rio disputando o pão, pão que esmigalho e jogo na água do riachão, e é um espetáculo tão lindo, de rara beleza, esses peixinhos do rio parecem gatinhos fofinhos, pulando felizes para pegarem o meu pão; os patos selvagens aparecem também, e eu vou, aos poucos, descobrindo o Desconhecido Brasil Varonil, sem medo de jacarés, piranhas e sucuris; sem medo, Godofredo!, de ser deveras feliz!; mas, tranqüilize-se!, eu não vou mexer com os jacarés das turvas águas do Brasil Varonil, não senhor!, o bote do jacaré de má-fé é mortal, meu amor!; Deus me livre, não quero ser comida de predador, não quero ser comida per predador, não senhor!, quero é pescar pirarara, sim senhor!, um pirarara de vinte e cinco quilos, minha Nossa Senhora!, depois, vou jogá-lo no rio outra vez, no rio desconhecido com milhares e milhares de peixes desconhecidos; no dia seguinte, quero apreciar o Sol Apolíneo Grandioso HiperAmazonense com seus raios bellíssimos; quero conversar com Tupã, o deus da Floresta Tropical-Equatorial, tão forte e poderoso quanto qualquer outro deus da mitologia pagã; deixarei para trás os deuses do Olimpo Greco-Romano e de outras Culturas Antigas!; o nosso índio inocente cultuava Tupã, e o homem branco do Mundo Rotundo chegou e adonou-se da Aldeia do Índio, para destruir sua crença, destruir a crença e destruir o índio, agora, são poucos os habitantes da Floresta Sem-Festa; quero conversar com Tupã Magnífico no Silêncio da Matta, pedir a sua proteção para as tribos restantes; óh! Tupã!, óh! Tuuu-Pã!, não deixe o índio desaparecer da face da Terra!, afaste, Tupã!, o homem branco malvado das Tabas dos Índios Mestiços!; depois da conversa deífica, no dia seguinte!, a apreciar novamente o Bello e Charmoso Sol da Floresta Tropical-Equatorial, sairei para pescar outros peixes imensos, mas devolverei todos às águas do Rio Eternal; a minha pesca é ecológica, Amor!, é pura brincadeira!, não quero matar os míticos peixes milenares!, não, senhor!, só quero conhecer os peixes existentes nos rios do Brasil Varonil Cor de Anil antes da hecatombe final; se houver hecatombe, Amaral!, milhares e milhares e milhares de peixes milenares serão sacrificados!, vão desaparecer para sempre da Terra Rotunda!; por isto, talvez, eu me atreva a cozinhar apenas um peixinho de nada, só para matar a fome do dia, ou para uma oblação a Cupido Querido; isto já faz parte das Leis da Existência Vital, o bicho-homem precisa se alimentar, e peixe é alimento também; comer peixe não é pecado, não senhor!; neste Final de Século XX, assamos peixe, galinha, porco e cabrito; ainda assamos animais para alimentar a humanidade enricada, fazemos libações perfumosas à moda do Ontem; a fumaça dos assados, nas Grandes Churrascarias Milionáqrias de hoje, reverencia os deuses-narizes afortunados; há também os que morrem de fome!; metade da humanidade não tem o que comer, não senhor!, aqueles sofrem os pobres trabalhos sem conta; o dinheiro, hoje, é o grande vilão!; sem ele, não se come, não senhor!; e poucos conseguem riqueza neste nosso Capitalista Mundo Atual!; mas, quomodo eu ia dizendo, os Peixes Mitológicos são Gigantes das Águas Eternais, os Ferozes Bichos Milenares enfeitam a Floresta do Norte da Sorte, as Árvores Centenárias vão ser derrubadas; o que será da humanidade, my God!, não teremos as árvores, as árvores purificam a atmosfera desse Mundo de Deus dos Cristãos e Hebreus; por ora, viajo de Canoa Argentada, pelo Igarapé Mui Misterioso, acompanhada de um Guia-Caboclo pra lá de charmoso, almoço peixe com farinha à moda do Norte do Brasil Varonil, correndo atrás dos peixes e os peixes atrás de mim, vou pescando, pescando os peixes do Grande Amazonas, depois, vou acomodá-los outra vez no Rio Eternal, eles não podem viver fora d’água, não!, são centenas, milhares de peixes desconhecidos; no dia seguinte, quero apreciar o Sol Fabuloso Brilhoso, o Carro de Apolo Cantor nos Céus de Manaus, buscando sempre a trilha aquática dos Peixes Imensos; depois, vou para o Pantanal Matogrossense, com o meu Guia-Caboclo-Amazonense, o Guia-Caboclo Mais Bonito do Mundo Nonsense, olhar as garças graciosas, as inhumas brilhantes e as gaivotas voadoras, descendo de barco o Rio Guaporé do Caboclo José, escondido ainda, não sei quomo!, na Floresta Preservada; o meu objetivo, nesta viagem, é pescar o Tambaqui Gigante Já Em Extinção, estou procurando nas águas eternais o Tambaqui Gigante Que Não Mais Existe, mas pesco mesmo é o Peixe-Tigre, todo listrado, quomodo um tigre das águas; talvez, quem sabe?, deparo-me com um Boto Cor-de-Rosa e com a Lendária Onça Pintada Gigante das Histórias de meu avô Emiliano Romano caçando; a Onça comedora de Boto Cor-de-Rosa, meu Netinho!, querendo pegar o Tambaqui Gigante!; entretanto, eu pego mesmo é o Pirarara Pequeno; no fim da viagem, da pescaria, quero dizer, nada de Tambaqui por aqui, não é mais possível pescar Tambaqui Gigante neste Final de Segundo Milênio!; mas, óh!, peguei, sim senhor!, acredite, meu Netinho!, o Maior Tambaqui Dessas Águas Milenares!; foi uma Odisséia digna do Jônico Homero, filho de Apolo e Meone!, por Zeus!, por Júpiter!, por Oxalá!, por Tupã!, o deus Maior da Floresta dos Índios Amazonenses!, pegar o maior Tambaqui do Universo Sem-Fim!; um Tambaqui de mais de trinta quilos, minha Nossa Senhora das Prosopopaicas Causas!, um grande Tambaqui divinal, talvez, o último deus-Tambaqui do Milênio de Peixes!, maior do que o Piraíba Gigante também endeusado; talvez já não existam mais, não senhor!, Piraíbas Gigantes; ainda, há peixes gigantes no mundo atual, não mais tão gigantes quomodo os do passado dos gregos e romanos; o Piraíba Gigante, se ainda existir, se esconde no Pará, no Estado do Pará, no Brasil Varonil, quero dizer, o Piraíba Gigante, se ainda existir, poderá ser encontrado na divisa do Pará com Mato Grosso do Norte da parte Oeste do Brasil Varonil; por Zeus!, já estou cansada de viajar atrás dos Peixões Milenares do Imenso Largo Caudaloso Rio Encantado!, vou voltar p’ra Manaus com meu Bello Cicerone-Caboclo, quero dizer, meu Guia-Caboclo Pralá de Atraente, voltaremos de Jeep e não de Canoa; quero dizer, meu Guia-Caboclo prefere viajar de Jeep Indomável; quem sou eu?, para contrariar o meu Guia-Caboclo de Pele Vermelha, lindo e brilhante?, sou apenas uma mineira matreira a viajar pelo Mundo Praláde Profundo, Vagante!; viajo pelo interior de meu mundo profundo e gigante; eu sei!, você entendeu, meu Mercúrio Gigante Caboclo!, no momento, é você o meu Guia Bonito!, em qualquer Era do Mundo Rotundo e, também, do Profundo, guiando-me nesta Voadeira Ligeira até a Ilha do Amor Transcendental Redentor!; mas, de verdade!, meu Guia prefere viajar de Jeep Veloz; a Barca de Caronte ficou atracada no Rio Guaporé; o jeep é um carro possante e enfrenta estradas esburacadas e abandonadas; o jeep enguiçou nesta minha viagem inventada, as rodas das supermáquinas de hoje não agüentam o rojão; abandonamos o jeep e viajamos a pé; o jeep não transita na matta, não senhor!, e eu vou diapé até a Sete Quedas; quando você nascer, meu Leitor do Futuro!, com certeza, ela será a extinta Cachoeira das Sete Quedas; a vida brota das rochas; nesta minha viagem, a vida brota das Incríveis Rochas Sagradas das Plagas Gerais, Rochas Sagradas que abrigam Sagrados Animais; por isto, desisto de voltar para a Grande Manaus; mas, eu quero ainda pescar o Piraíba Gigante das Histórias Indígenas Antigas, e vou escorregando nas pedras do Misterioso Caminho Super-Fluvial, nas Misteriosas e Embaraçadas Veredas, atrás da Sorte Distante que é pegar o Piraíba Gigante; no entanto, só pesco minúsculos Jaús de quinze quilos cada um, mas não desisto, não senhor!, jogo os jaús pequeninos novamente no rio; agora, óh!, emoção sem razão!, pesco um Pirarara dos Grandes, depois, um Jundiá Gigantesco, também chamado de Peixe-Onça; Piraíba Gigante?, não sei não!; agora, só vejo a Irara Curiosa me olhando de longe!; o Piraíba Gigante é hoje um peixe mui raro, talvez já não existam piraíbas gigantes no mundo atual, uma espécie de bagre gigante dos rios tropicais; daqui a pouco, vou voltar pra Manaus, vou recuperar minha Barca de Caronte atracada no Rio Guaporé do Gigante, vou voltar de Barco Bacante com meu Lindo Guia Brilhante, o Guia-Caboclo Mais Bonito do Mundo Circundante; eu vou voltar pra Manaus, sim senhor!, seu doutor!, vou recuperar a minha Barca Brilhante de Barqueiro QuironAmante atracada no Rio Gigante, vou voltar de barco com o meu Guia-Caboclo Mais Bonito do Mundo Profundo, eu vou voltar para Manaus, sim senhor!,