NEUZA MACHADO

DISCURSO FICCIONAL E ESTRUTURA SOCIAL
NEUZA MACHADO
O romance, no início de seu desenvolvimento histórico, foi biografia e crônica, refletindo assim a sociedade da Era Moderna. Lucien Goldmann (A Sociologia do Romance) postula uma relação entre forma romanesca e a estrutura social em que ela se desenvolveu. As relações econômicas, na sociedade moderna, determinaram as atitudes do homem em relação aos objetos. Se antes o homem medieval se contentava com valores de uso, sistema de primeira onda, utilizando a terminologia de Toffler (A Terceira Onda), com o advento da sociedade moderna burguesa esses valores foram abandonados, em benefício de um sistema no qual o que importa é o lucro, a parte rentável dos objetos transformados em mercadoria destinada ao consumo (o que permanece na sociedade informatizada do século XXI).
As duas estruturas — a do romance paradigmático e a da moderna sociedade — são semelhantes, porque a trama (complexa) do romance moderno (não confundir com o já sacralizado termo “romance” que conceitua as narrativas lineares anteriores à Era Moderna) recria ficcionalmente o conflito e a solidão do homem da Era Moderna (momento do individualismo em oposição ao medieval comunitário), além de reproduzir a sua busca desesperada (sem esperança de realização) de valores inalterados.
Para responder a esses alterados valores humanos do período (resposta camuflada, degradada), a moderna e individualizada sociedade capitalista (incluindo também o momento de transição para a atual ― pós-moderna) estabeleceu a mediação da quantidade do valor do capital. Eis porquê os indivíduos gerados por essa sociedade tumultuada são inautênticos e os “heróis” do romance moderno (romance: espelho dessa sociedade) também.
MACHADO, Neuza. O Narrador Toma a Vez: Sobre A Hora e Vez de Augusto Matraga de Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: NMachado, 2006 – ISBN 85-904306-2-6
Nenhum comentário:
Postar um comentário