NEUZA MACHADO

NEUZA MACHADO
O início da narrativa A hora e vez de Augusto Matraga, do escritor mineiro Guimarães Rosa, reenvia-me a um momento histórico de transição superposto e condicionado no espaço do sertão brasileiro do Estado de Minas Gerais: o momento da mudança mítica ocorrida no mundo.
Quando observo conscienciosamente a primeira sequência ficcional, reconheço o personagem Nhô Augusto como a própria personificação de um deus mitológico. Mais precisamente, o visualizo como personificação sertaneja do Zeus Capitolino dos antigos. Vários referentes remetem-me a esta interpretação. Senão, vejamos: “Matraga não é Matraga, não é nada”. Matraga, apelido que me faz pensar em matraca, barulho, trovões, é muito pouco para caracterizar a estirpe genética do herói.
“Matraga é Esteves. Augusto Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto — o homem — nessa noitinha de novena, num leilão de atrás de igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).
Matraga é Augusto, filho do Coronel Afonsão Esteves. Augusto: nome que remete à idéia de uma pomposa figura, símbolo dos governantes gregos; marca de respeitabilidade, de veneração; marca dos que vieram ao mundo sob bons presságios. Augusto é o homem. Entretanto, muito mais do que Augusto, filho do Coronel Afonsão — observe-se o aumentativo como marca de realeza —, Augusto Esteves é Nhô Augusto, o Senhor de um espaço sócio-substancial onde a heroicidade de um homem alcança o plano mítico. O personagem é, em princípio (na primeira sequência), a personificação do herói, e o sertão é o espaço antigo desse descendente de Zeus. Pari passu com seu poder de homem público, há nele o poder dos que se mitificam negativamente para impor seus desígnios aos menos favorecidos socialmente.
O personagem Nhô Augusto, no início, em sua majestade:
“E, aí, de repente, houve um deslocamento de gentes, e Nhô Augusto, alteado, peito largo, vestido de luto, pisando pés dos outros e com os braços em tenso, angulando os cotovelos, varou a frente da massa, se encarou com a Sariema, e pôs-lhe o dedo no queixo. Depois, com voz de meio-dia, berrou para o leiloeiro Tião:
— Cinquenta mil réis!...
Ficou de mão na cintura, sem dar rosto ao povo, mas pausando para os aplausos.
— Nhô Augusto! Nhô Augusto!
E insistiu fala mais forte:
— Cinquenta mil-réis, já disse! Dou-lhe uma! Dou-lhe duas – dou-lhe três!...” (A Hora e Vez de Augusto Matraga).
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